Drift

Never heard the sound of bombs

But a crying reverbs in me

Since a century of storms

Till here

Where everything is ragest seas

And endless drifts

Anúncios

O que aprendi com os homens “sensíveis” da cultura pop japonesa

Enquanto crescia, eu nunca performei uma masculinidade padrão. O que isso significa? Todos aqueles pontos que identificamos como inerentemente masculinos, mas que não necessariamente têm a ver com gênero. Por exemplo: nunca gostei de futebol (na verdade, nunca me dei bem em atividades físicas); era bastante intolerante a dor ou a qualquer coisa que pudesse me machucar; não via problema em conversar para conseguir as coisas ao invés de usar força bruta; gostava de cantar e dançar; gostava de estudar; etc.

Ora, algumas dessas coisas não necessariamente estão atreladas à uma masculinidade padrão. Entretanto, eu sou nordestino, de uma cidade interiorana bem pequena onde todos esses fatores que eu citei eram vistos, exclusivamente, como femininos. Sofri muito bullying, apanhei, levei pedrada por não ser “homem”.

Quando meu pai finalmente conseguiu colocar uma televisão dentro da nossa casa, eu comecei a assistir os desenhos japoneses que passavam na finada rede Manchete. Dois deles eram os meus preferidos: Yu Yu Hakusho e Cavaleiros do Zodíaco. Quando vi esses animes pela primeira vez, também foi a primeira vez que vi um homem que não performava uma masculinidade tóxica. E é sobre eles que eu gostaria de falar.

Primeiro de tudo, Shun e Kurama eram fortes. Se não fossem fortes, não estariam naquele grupo. Kurama havia sido o rei soberano do submundo; enquanto Shun batalhou e se tornou digno de defender uma deusa. Em segundo lugar, luta física não era a primeira saída. Mais do que Kurama, Shun tentava de todas as formas possíveis não entrar em conflito, por não acreditar em violência como forma de alcançar objetivos, mesmo quando em combate com um adversário violento. Quando não era possível outra forma de embate, eles partiam para a luta e mostravam um poder que facilmente superaria o do restante do grupo.

Nenhum dos meus amigos de infância se identificava com eles. Preferiam ser o Seya ou o Hiei que já chegavam batendo. Mas eu olhava para aqueles homens sensíveis, não-violentos e percebia que tudo bem ser como eles, como eu sou. Que eu também sou homem. Óbvio que todos os meus amigos, impregnados pela mentalidade tóxica daquele lugar, julgavam meus dois personagens preferidos como gays (mesmo que os indícios apontem para a heterossexualidade de Shun e a assexualidade de Kurama), o que lá naquela cidade era uma condenação à morte. Então por muito tempo escondi minha afeição por eles. Fingia que outros eram meus preferidos.

Mas secretamente eu aprendi algumas coisas com eles. Aprendi que existem outras formas de ser homem; aprendi que eu precisaria, sim, ser mais forte emocionalmente do que todos a minha volta, porque minha aparência sensível e não-masculina faria algumas pessoas me julgarem indigno do meu lugar ou até mesmo da minha vida; aprendi que ter conhecimento pode ser tão relevante quanto ter força física; aprendi que não preciso bater, gritar para conseguir o que quero; aprendi que ser sensível não significa ser fraco; aprendi a ouvir antes de falar; aprendi a analisar tudo e todos a minha volta para entender as situações em que eu estava inserido.

Hoje, eu me sinto bem mais confortável com minha masculinidade não padrão. E Shun e Kurama foram responsáveis por isso. Apesar de continuar sendo rechaçado por isso, eu me sinto mais forte em ser quem sou. Me sinto mais digno de mim mesmo.

Vejam, não sou a favor da depreciação da cultura pop, porque quando eu era pequeno não fazia a menor ideia das noções de gênero e performatividade presentes nos trabalhos de Judith Butler, por exemplo. Logo, quem me ensinou a entender meu gênero e suas variações e identificar meu lugar dentro desse gigante espectro, foi um anime. Cultura pop, aquela que julgam boba, destrutiva de caráter e intelecto. Mas ela me ajudou a ser quem sou hoje. Um homem que tem orgulho de se dizer poeta; de dizer que ama estudar, ama literatura, ama filosofia, ama arte, sem precisar se importar com o preconceito dos outros. Tudo isso só foi possível graças à cultura pop. Sem ela, eu não seria quem sou hoje.

A maioria de nós não está disposta a empenhar tempo pensando e isso não é necessariamente ruim

Não, não é. O mundo hoje em dia é superssignificativo (acho que essa palavra não existe, então me permitam o neologismo) e o nosso cérebro ainda demora a processar toda a informação que recebemos a cada momento.

Dessa forma, às vezes estamos mais empenhados em uma forma anestésica de engolir nossa realidade. E tudo bem. Isso não é um problema. É um hábito e como todo hábito pode virar um problema. Como o alcoolismo e o tabagismo, por exemplo.

O problema de fato está em não saber o momento certo de se render a esse hábito. Fazer disso uma forma de descansar pode ser válido; mas fazer disso uma forma de viver é perigoso.

 

A vida além da alegria

Parece que nunca estivemos tão obcecados com o “ser feliz” quanto estamos agora. É tão imperativo, que a busca pela felicidade se tornou uma imposição: tudo que fazemos, tudo que consumimos está preso nessa vontade de superar nosso cotidiano ridículo e atingir uma forma além do comum, uma forma de alegria plena, de felicidade irrefutável.

 

O problema está no fato de que o “ser feliz” é quase impossível. Freud escreveu que nossa sociedade está construída de uma forma em que estamos sempre buscando a realização de um desejo; nessa realização está a ilusão de que seremos felizes. Por exemplo: queremos o modelo mais recente de celular; quando o conseguimos, a felicidade dura semanas, raramente meses e logo estamos desejando ardentemente uma outra coisa, uma outra pessoa, que parece ser a promessa de nossa felicidade. A dinâmica é sempre essa: nosso desejo flutua entre realizações que nos são apresentadas como a promessa da felicidade. A propaganda é focada nisso; nosso crescimento pessoal é focado nisso. Assim, é mais justo procurar o “estar” feliz do que o “ser” feliz, pois o estado inalterável da felicidade não existe.

maxresdefault
Trecho do vídeo de Fake Happy, de Paramore.

É terrível, não é? Mais ou menos.

 

Paramore, a banda de rock alternativo, lançou em 2017 seu último álbum de estúdio chamado “After Laughter”. As letras e as músicas, como sempre, estão centradas na experiência emocional da vocalista e letrista da banda, Hayley Williams. Mas há um amadurecimento gigante em como esses sentimentos são abordados. Antes, vamos ao conceito geral do álbum.

 

“After Laughter” seria, na explicação de Hayley, a cara que fazemos depois de terminar de sorrir. Essa queda no real nos confronta com a banalidade da vida, que nos concede apenas poucos momentos de alegria e menos ainda momentos de felicidade genuína.

 

No lugar de negar esse momento em que a felicidade acaba, Hayley decide se debruçar sobre ela e com ironia e sarcasmo certeiros ela cria letras que mostram a fragilidade do nosso sentimento de felicidade e permanência dessa “queda no real” que nos vem nos momentos em que não estamos felizes. A vida parece ser feita, basicamente, dessa dualidade. Se quer um exemplo melhor, veja o vídeo e leia a letra da canção “Fake Happy” aqui.

 

De novo, parece terrível encarar o fato de que a felicidade nunca será permanente, não é mesmo? Para mim, é o contrário: é muito mais honesto assumir que a alegria e a felicidade nos vêm em momentos e que a vida é constituída dessa dinâmica. É menos imperativo, menos cansativo e mais satisfatório: assim, não passamos a vida inteira em busca de uma felicidade plena irreal e aceitamos os momentos aquém e além da alegria, quando a realidade é extremamente banal e planamos no mundo comum, aquele do trabalho, das relações superficiais.

 

Não conseguimos, ainda, mudar a forma como a sociedade controla nossos desejos e ambições, mas podemos mudar a forma como aceitamos todos os momentos de nossa vida, os melhores e os piores, além dos neutros. Pode ser uma visão mais realista da felicidade. Essa é uma resposta definitiva? Não. Mas é uma linha de pensamento e pensar ainda é a melhor forma de nos livrar do mal, do sofrimento, da banalidade. Negar não nos leva a nada, mas refletir pode nos levar a algum lugar.

paramorefakehappyvideo_zpsfglvoshx
Trecho do vídeo de Fake Happy, de Paramore.

O homem sem cultura

Estou tendo contato com algumas ideias de Agamben, filósofo italiano.

Em um levantamento sobre o surgimento do “homem de gosto” (aquele que pode ser um crítico ou apenas um grande apreciador de arte), ele mostra que essa figura se fortalece na época do romantismo, quando a arte é elevada a um patamar bastante alto. A partir de então, o fazer artístico se tornou mais importante que a própria arte. Isso apartou o artista dos demais extratos da sociedade, um reconhecimento que os românticos se esforçaram para obter.

Isso também cindiu a própria arte em alta cultura e baixa cultura. O problema é que a apreciação desinteressada (arte pela arte) da arte é insustentável, e o homem de gosto acaba por se interessar também por exemplares da baixa cultura.

A maioria das pessoas acha impossível gostar de Chico Buarque e Pabllo Vittar ao mesmo tempo, por exemplo.

Lembro-me, também, de que Bauman via que a eleição de uma “alta cultura” servia bastante à classe dominante para marginalizar aqueles que não eram identificados como “homem de gosto” (de “bom” gosto, no caso).

Vejo como Agamben: essa distinção é insustentável. A arte desinteressada caminha ao lado do entretenimento, e como seres plurais, somos permitidos circular por todos os extratos da cultura.

É necessário ainda questionar o que distingue esses extratos, mas para isso ainda não tenho mais respostas, além da visão de Bauman.

 

O que você pensa sobre o assunto?

O jardineiro

Estava acabando, bastava depositar a última pá de terra seca sobre o corpo já completamente escondido e estaria finalizado. O sol havia esquentado seus miolos e ele quase não era capaz de pensar.

Morava ali sozinho e fazia questão de enterrar todos os corpos que apareciam no que ele chamava de “meu jardim”. Era um jardineiro, não um coveiro. Convencia-se da paz no seu trabalho. Dava alguma dignidade àqueles que ele sequer sabia o nome. Não os nomeava, nem enumerava. O anonimato talvez fosse a única paz verdadeira para aqueles homens, mulheres e uma (única) criança. Com essa fora especial. Deu banho. Encontrou uma roupa ainda usável no lixão ao lado e a vestiu. O garotinho estava lindo, um anjinho indo direto para o céu. Amém.

Esfregou a testa escorrendo de suor. Sorriu para o seu trabalho bem feito. Olhou todas as outras covas e era isso. Fazia o bem a quem precisava. Era isso.

Guardou a pá no galpão improvisado de caixas de papelão onde estava tudo de que ele necessitava para seu trabalho.

A noite caiu veloz enquanto ele dormia na poltrona velha e desgastada em frente à grande TV de tubo. Tudo herdado do que as pessoas não queriam mais.

O jornal começou com a notícia principal. Um filho de alguém havia sumido. Ele se assustou quando viu o rosto do rapaz que havia enterrado hoje. Era ele. Tinha um nome. E essa era toda a desgraça.