as pedras e os caminhos

a moleza dos dias sem carga horária 

apoiados na grande muralha de livros por ler
e nas pilhas de roupas sujas dos sonhos

que eu perdi na semana

no almoço sem gosto de um domingo sem gozo

tudo empacotado na espera do trabalho
atualizado pelo mundo grosso girando

em uma rota sem destino

em uma roda sem sentido 
pontuada pelas pequenas pausas sem

pânico em que se pode respirar com

as pedras na garganta. 

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It – a coisa – Stephen King 

“Uma criança cega de nascença nem sabe que é cega até alguém dizer para ela. Mesmo então, ela só tem uma noção das mais acadêmicas sobre o que é a cegueira; só quem já enxergou tem uma noção verdadeira do que é ser cego. Ben Hanscom não tinha noção de ser solitário porque nunca teve nada diferente. Se a condição fosse nova ou mais restrita, ele poderia entender, mas a solidão dominava e se sobressaía na vida dele. Apenas existia, como o polegar com duas juntas ou a parte irregular nos dentes da frente, a parte irregular onde a língua tocava quando ele ficava nervoso.”

Citação: It – a coisa – Stephen King 

“Este caderno é para ser um esforço para superar essa obsessão com a ampliação do foco da minha atenção. Afinal, há mais nesta história do que seis garotos e uma garota, nenhum deles feliz, nenhum deles aceito pelos colegas, que tropeçaram em um pesadelo durante um verão quente quando Eisenhower ainda era presidente. É uma tentativa de afastar um pouco a câmera, para ver a cidade inteira, um lugar onde quase 35 mil pessoas trabalham e comem e dormem e copulam e compram e dirigem e andam e vão para a escola e vão para a cadeia e às vezes desaparecem no escuro.”

[Resenha] A morte do pai – Karl Ove Knausgård

13088_gg“Primeiro livro da saga literária que consagrou o autor no mundo inteiro”, esse é o resumo que você vai ler, sempre, ao pesquisar por esse livro. Confesso que isso me chamou atenção, ao lado do “fenômeno literário” que vem estampado em algum lugar da capa.

Comecei a ler sem pretensões, mas imediatamente fui fisgado. Obsessão, foi isso que senti pelo livro. Quase me senti a garota de “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, ao ter em mãos o livro que tanto anseara. Fingia que o livro não existia só para redescobrir o prazer de tê-lo. Comigo se passou o mesmo. Fiquei, mesmo, obcecado. Lia pouco todos os dias para fazer aquela experiência durar mais, sem nunca me perguntar a causa daquilo.

Uma pesquisa rápida pelo autor vai inclui-lo no ramo “recente” da literatura de autoficção. Não tenho muito conhecimento sobre o assunto e vou me arriscar a generalizar que se trata da ficcionalização do eu. Transformar o “ser” autor em personagem do livro ao mesmo tempo em que reconstroi as barreiras da ficção. No que isso difere da autobiografia, eu não sei dizer ao certo. Mas talvez consiga identificar uma e outra se ler um pouco de cada.

Enfim, a saga trata da vida de Karl Ove Knausgård, mas os limites entre biografia e ficção são tão finos, tão indistinguivéis, que a todo momento você se pergunta se aquilo é vida ou ficção, vida ficcionalizada, ficção baseada na vida, enfim.

Karl Ove tem uma declarada influência em Proust, apesar de manter um estilo mais reto, mesmo preservando as digressões características de Em busca do tempo perdido.

Essa resenha não é bem uma resenha, é mais uma indicação de leitura, então não irei me aprofundar muito.

Para concluir quero apenas dizer que a experiência de leitura de “A morte do pai” foi inigualável.

Horizonte industrial 

o assombro da cidade está atrás

antes da hora exata

antes do fim de qualquer coisa

a cidade paira no tempo

o tempo que corre sem medo

a pele esquenta e o viaduto geme

percorre as sombras em jogos violentos

a boca flácida com fome

as ruas assassinas sem nomes

as linhas amarelas riscam os olhos

é pra seguir sem saber

é pra ir sem poder

é no fim do dia que a cidade tem vida

quando a vida tem horizonte e expectativa

a cidade saliva

o horizonte morre em pé

o dia não chega ao fim do dia

Citação: Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez 

“O general Moncada levantou-se para limpar os grossos óculos de armação de tartaruga nas fraldas da camisa. ‘Provavelmente’, disse. ‘Mas o que me preocupa não é que você me fuzile, porque afinal de contas, para gente como a gente isso é morte natural.’ Pôs os óculos na cama e tirou o relógio da corrente. ‘O que me preocupa – continuou – é que de tanto odiar os militares, de tanto pensar neles, você acabou sendo igual a eles. E não existe um só ideal na vida que mereça tanta abjeção.'”

(p. 199)

Citação: Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez


“Na escola destruída onde experimentou pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros de onde conheceu a incerteza do amor, Arcádio achou ridículo o formalismo da morte. Na verdade não se importava com a morte mas com a vida, e por isso a sensação não foi uma sensação de medo e sim de nostalgia. Não falou nada até que perguntaram qual seu último desejo.”

(p.159)

Lendo It – a coisa – Stephen King 

“Algumas semanas depois, ao sair do cinema, ela acendeu um cigarro no saguão sem pensar e tragou enquanto eles andavam pelo estacionamento, em direção ao carro. Era uma noite fria de novembro, e o vento atacava loucamente qualquer centímetro quadrado de pele exposta. Tom lembrou que conseguia sentir o cheiro do lago, do jeito que às vezes dava nas noites frias: um cheiro frio que era ao mesmo tempo de peixe e vazio. Ele a deixou fumar o cigarro. Até abriu a porta para ela quando chegaram ao carro. Ele entrou atrás do volante, fechou a porta e disse: Bev? 

Ela tirou o cigarro da boca, se virou para ele com expressão de pergunta e ele deu uma porrada nela, com a mão aberta e dura atingindo a bochecha com força suficiente para fazer a palma da mão formigar, com força suficiente para empurrar a cabeça dela para trás, sobre o apoio da cabeça. Seus olhos se arregalaram de surpresa e dor… ”

Stephen King sempre nos lembrando que nem sempre os piores monstros são sobrenaturais ou vivem em bueiros e esgotos escuros. 

(10% do livro em versão digital lido) 

[PODCAST] Sombra na Estante #1

 

E aí, galera. Eis o nosso primeiro podcast oficial. Não ficou perfeitinho, mas vamos aprendendo com o tempo, né?

Neste episódio falamos sobre Jogos Vorazes, distopias, livros YA, 1984 e um pouco mais.

Se vocês quiserem, a opção de baixar está no próprio player.

Link para o canal da Tati: https://www.youtube.com/user/tatianagfeltrin

As músicas tocadas no podcast pertencem a https://soundcloud.com/kidofearth