(Resenha) As vozes de Tchernóbil – Svetlana Alexiévitch

A lembrança é traiçoeira. Ela finge manter uma imagem limpa e clara dos acontecimentos, quando na verdade retém um aspecto pequeno, distorcido e por vezes até irreal, mantido por um capricho sentimental ou até mesmo racional. Mas nada disso retira o caráter fantástico da história oral. A palavra falada e passada adiante tem um poder diferente do texto escrito. Ela tem mais emoção e tem os olhos marejados, a força da voz e da entonação. 
O livro de Svetlana começa com a transcrição dos informes de jornal da época do desastre nuclear em Tchernóbil e com a transcrição, também, do relato de uma mulher que perdeu o marido, bombeiro chamado para apagar o incêndio na usina. A narradora se pergunta, durante todo o relato, o motivo de amor e morte estarem associados tão frequentemente. 
A chave do livro de Svetlana é esse: dar voz ao homem pequeno. Deixar falar o ser humano comum, deixar que ele derrame toda sua poesia cotidiana e desinteressante, reformulada por uma catástrofe sem precedentes, nunca compreendida por completo. 
Grande parte dos relatos associa a forma como o governo soviético tratou o acidente como uma guerra. O vocabulário era de guerra, as ações eram de guerra, mas o povo soviético estava lutando contra o quê? O átomo. A física. O átomo da paz, como vendido pela União Soviética, oposto ao átomo que os EUA usou em Hiroshima e Nagasaki. 
Os relatos são chocantes e emocionantes. O livro é dividido em várias partes, dando voz a pessoas diferentes e histórias diferentes, revelando desde os anseios das crianças até a decisão dos mais idosos de continuarem vivendo na área contaminada, mesmo sabendo que correm risco de vida. Mas a radiação não se vê. Os animais sobrevivem, a colheita existe e o leite não tem gosto ruim, porque sair de lá? Pode ser um choque entrar em contato com a realidade do povo pobre soviético escolhendo viver ali a reconhecer uma falha do governo, que culpava espionagem, traição, mas nunca assumiu a culpa de ter construído um reator nuclear em três meses com material barato e com pouca segurança. 
A questão do gênero exato do texto de Svetlana deixa de ser importante quando se percebe a força da narrativa que ela constrói. Jornalismo literário, romance, autoficção, biografia. Não importa. A história é maior do que tudo isso é isso é o mais importante.

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Lendo “Vozes de Tchernóbil” – Svetlana Aleksiévitch

“Na zona e ao redor da zona, a enorme quantidade de equipamentos militares era assombroso. Soldados em formação marchando com as suas armas novinhas em folha. Com todos os acessórios de combate. Não sei bem por quê, das armas me recordo mais que tudo, e não dos helicópteros e dos blindados. Das armas… De pessoas armadas na zona. Em quem eles poderiam atirar ali? De quem iriam se defender? Da física? Das partículas invisíveis? Metralhar a terra contaminada ou as árvores?”

Página 45.

Amador

A vida me arrasta pelos pés 

Me obriga a ocupar uns espaços
Que vagos estariam melhor
Do que preenchidos com meu amadorismo

Não aprendi nada sobre nada
Mas me obrigo a entender algumas coisas
Porque não posso passar o mundo sentado
Cada dia com um livro diferente do lado

Cada vida parado
Sem esperar
Porque do tempo eu não entendo
Como não entendo de nada
nada nada