Lendo “O chamado do cuco” de Roberth Galbraith

– “Com as toneladas de matérias em jornais e horas de falação pela TV sobre o assunto da morte de Lula Landry, raras vezes se fez essa pergunta: por que nos importamos? 

“Ela era linda, é claro, e as mulheres bonitas têm ajudado a movimentar jornais desde as sereias hachuradas de pálpebras caídas de Dana Gibson para a revista New Yorker.”

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“É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira” organizada por Adriana Calcanhotto

Acredito que a primeira coisa a discutir nesta resenha é porquê chamar Adriana Calcanhotto para organizar uma antologia de poesia. A resposta, na verdade, é bem fácil. Acredito que poucas pessoas no Brasil tiveram tanto contato com a poesia, seja escrevendo, lendo, cantando ou ouvindo da boca dos próprios poetas, dos quais ela esteve tão próxima, quanto Adriana. Seu conhecimento de poesia é tão respeitado que recentemente ela foi convidada para ministrar um curso numa universidade em Portugal. Adriana não só conhece a poesia, como tem o conhecimento suficiente para falar sobre ela.

Tendo discutido isso, passamos para o próximo ponto: como criar uma antologia de algo que está acontecendo? Adriana sabe disso e deixa claro no início do livro que enquanto ele está sendo organizado, impresso e lido, vários outros poetas estão surgindo, talvez muitos deles merecedores de estar naquela antologia, mas ainda restrito aos meios marginais da nossa atualidade, como os blogs e os fanzines. Justamente por isso a antologia é chamada de incompleta, pois o contemporâneo é quase impossível de se ver em seu próprio momento. Isso nos leva ao próximo ponto: variedade.

Como uma antologia que tem por intenção mostrar o panorama da produção poética atual, fiquei um pouco decepcionado por serem contemplados apenas poetas já publicados em livros, independentemente da editora. A poesia contemporânea vive na Internet. É lá que ela encontra a abertura para se jogar no mundo. Apesar disso, entendo o quão difícil seria a tarefa de incluir na antologia poetas que publicam na Internet, seja lá qual o suporte. Uma falta perdoável.

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Vamos falar então agora das próprias poesias. A nossa produção atual é muito vasta e não compõe um grupo de características específicas possíveis de definir. A antologia é composta tanto por poemas que rompem uma certa expectativa do que seria um poema, quanto por outros que suprem essa necessidade de um leitor mais acostumado com a poesia anterior às vanguardas.

Mas algo perceptível é a busca por um olhar que abarque nosso tempo, nossa vida, nossos amores, nossas obrigações, nossa sociedade. A maioria, se não forem todos, os poemas buscam uma determinada identificação com o presente, que, como já falei lá em cima, é muito difícil de construir. O tempo só é entendido por completo quando se torna passado. Mas, talvez por se tratar de poesia e arte, os poemas da antologia conseguem de alguma forma pelo menos criar as imagens do nosso momento, nos fazendo reconhecer neles uma espécie de similaridade com a poesia que existe fora dos textos, no mundo, na parada de ônibus, no supermercado, nas filas de banco, no tédio do amor nos tempos da classificação digital.

No fim, a antologia cumpre bem seu papel, graças ao olhar apurado de Adriana e a seriedade nas edições da Companhia das Letras, mas, como já dito, peca em dar visibilidade apenas àqueles poetas já publicados, muitos saídos dos blogs e de outros lugares da Internet.

Espero muito que a antologia seja atualizada com o passar dos tempos para incluir os novos poetas que surgem todos os dias. Espero que ela não pare apenas nessa edição, que seja um livro possível de se refazer, para manter acesa a felicidade de perceber que a poesia não morreu, apenas mudou de endereço.

 

“Meia-noite e vinte” de Daniel Galera

No limiar do ano 2000, o mundo tinha dois possíveis destinos: sofrer com o bug do milênio toda a desgraça que o avanço tecnológico traria, ou gozar das vantagens que esse super desenvolvimento tecnológico proporcionaria a nossas vidas. O mais irônico é perceber que as duas alternativas na verdade não eram alternativas, nem opostas, apenas dois fatores de um mesmo fenômeno: a nossa evolução tecnológica; e que vivemos exatamente na linha divisória, com os braços abertos tentando nos equilibrar, um no caos e outro na evolução.

Meia-noite e vinte

Os personagens de “Meia-noite e vinte” eram jovens em 1999. Antero, Aurora, Emiliano e Andrei curtiam uma espécie de fama na Internet graças a um fanzine virtual chamado Orangotango, que fazia sucesso online com textos literários, manifestos e experiências artísticas. Envoltos em festas, popularidade, juventude, sexo e drogas, os quatro amigos publicam o e-zine em um curto período de tempo, logo quando a vida os chama a se integrar à sociedade, sempre maior e nem sempre melhor que nós.

O livro começa com Aurora lendo no Twitter a notícia da morte de Andrei, apelidado de Duque pelos amigos, em um roubo de celular, com um tiro na cabeça. Isso impacta Aurora de uma forma profunda, fortalecendo nela a sensação de que o mundo está acabando (não em um sentido catastrófico, mas como se os dias fizessem parte de um lento processo de degradação da humanidade), representando aquela primeira postura que comentei no primeiro parágrafo desta resenha.

Daniel Galera

Ela encontra os outros amigos no enterro. Emiliano, um homem gay, jornalista free-lancer, que tem um fetiche envolvendo sexo e violência. Antero, o espírito-livre do grupo na época do fanzine, que se tornou um publicitário de sucesso, trabalhando para as grandes empresas e metido em um casamento ao qual ele não faz questão de manter fidelidade. E por último a própria Aurora, que decidiu seguir carreira acadêmica, mas esbarrou em um professor que lhe nutre um desafeto e a reprovou no exame de qualificação para a tese.

Todos se sentem chocados com a morte de Andrei, o único que seguiu carreira literária e manteve sua vida o mais privada possível. Cai nas mãos de Emiliano a tarefa de escrever uma biografia sobre o jovem misterioso e talentoso escritor.

O livro retrata de quatro pontos de vista diferentes o futuro da chamada geração Y, aquela que cresceu com a Internet, a revolucionária. Mostra como a vida exige de nós tanta energia que quase não sobra nada para os nossos desejos. E ainda por cima explora as facetas da nossa nova vida online, questionando a relação entre memória e digital. Quando morremos, o que sobra de nós na Internet faz parte da nossa vida? Quando morremos, o que se faz com nossos dados e rastros que ficam na rede? De certa forma, a Internet permite que nossa memória e presença permaneçam ativas em contas de usuários e fotos de perfil. No livro de Galera, isso é fundamental para o desenlace da trama.

Sou leitor ávido de literatura contemporânea e nunca vi um livro refletir sobre nossa época e nossas subjetividades com tanta fidelidade. Já li outros livros de Daniel Galera e sempre gostei, mas fiquei com a impressão de que precisava de algo mais. Eu precisava de “Meia-noite e vinte”.

Álvaro

Processed with VSCO with b5 presetFechou a porta atrás de si e olhou o céu que já tomava aquela coloração meio laranja e meio rosa. Ouviu a mãe gritar alguma coisa, mas não prestou atenção. Desceu pela pequena rua, até chegar a avenida que atravessava três dos maiores bairros da pequena cidade. Álvaro desviava do olhar de todos. Tentou captar as sensações que poderia ter. Quis encontrar algo de profundo, mas não achou. Se permitiu então perceber, receber as percepções do mundo ao redor. O resto da luz do sol tocando a pele de seus braços magros. O vento seco do sertão mal balançando seu cabelo bem penteado, com o mesmo corte desde a primeira vez que sua mãe o fez sentar na cadeira do mesmo cabeleireiro que cortava seu cabelo até hoje. Não demorou muito para chegar até a ponte que dava acesso à saída da cidade. Tirou o celular do bolso e checou a mensagem que enviara para Erick, “posso lhe beijar uma última vez? Na ponte”. Antes de guardar o celular de volta no bolso da bermuda folgada sentiu o empurrão, não muito forte, mas o suficiente para desequilibrar um garoto magro que bateu a cabeça numa pedra assim que caiu e cujo corpo só seria encontrado três dias depois. No enterro falariam do bom garoto que ele era. Na rua falariam que morreu por ser viado. Erick não falaria nada.