sangramos

eu grito

até a garganta arranhar

 

nos deixam com menos que nada

para fazer o tudo que é nossa vida

que é quase nada

 

o terror galopante tem nome

tem endereço

tem contracheque gordo

 

nem precisa fechar os olhos

para ouvir o riso tosco

para ver a boca cheia da vida dos outros

do suor dos outros

 

rindo

rindo infinitamente rindo

 

as ruas sangram

os postes sangram

as favelas sangram

 

o bem do mal

que faz o mal

dizendo que é bem

 

os números sangram

 

os jornais relincham cobrindo aqueles que a vida é a rua

 

gritamos

 

a dor da vida é certa

o certo da noite que não sobrevive o dia

 

engolimos a alma

amarga

 

nos engolem o mundo

sangramos

 

(a Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, assassinada em 14 de março de 2018)

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