Yure

Os olhos desfocados estavam direcionados ao longo do grande engarrafamento na entrada do shopping, onde esperava o ônibus diariamente para voltar. Bem, não tão diariamente, já que tinha passado um mês afastado do que sua médica jugara “o estresse de um ambiente escolar”.

Ainda ficando longe, Yure perscrutou seu peito em busca de verdade. Não verdade, exatamente. Mas entendimento. Buscava uma história que pudesse contar, uma narrativa coerente que explicasse tudo aquilo. Olhando longe, Yure sentiu as pedras como se estivessem caindo em sua cabeça novamente.

Sentiu diminuir até quase se negar novamente. Sentiu toda a textura dos anos pulsando ao seu redor.

Estava tudo ali, até que, distraído, se surpreendeu com seu ônibus parando em cima dele, abrindo as portas com força e aquecendo seu rosto com o bafo do motor e de pessoas. Então não lembraria, até amanhã.

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divagações

A escrita é algo absurdo. Ao mesmo tempo em que ela exige de você espaço, ela exaure toda sua força. Na poesia, uma quantidade imensurável de energia é posta em movimento. E você é o centro do turbilhão. É por meio de você que essa energia se concretiza no texto.

fracasso

broken-lightbulb

o fim do dia ruge nas pregas inconsistentes do domingo

a natureza adormeceu

pousando nos céus os contrastes do acidente

 

os símbolos se esvaziaram

todos os sinais sumiram sem rastros

deixando nos sonhos aquele gosto rançoso do fracasso

 

que persiste inefável

infalível

enraizando os espaços vazios

que formam a estrutura da vida por acaso