fome

os olhos são mais famintos que o estômago

– de uma espécie diferente de voracidade –

 

engole a luz, saliva ao sentir o cheiro da sombra

 

nem mastiga a beleza

e ao horror não faz cerimônia

Florence-Hunger
Screenshot retirado do videoclipe Hunger, de Florence + The Machine
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A terra inteira e o céu infinito, de Ruth Ozeki

Existe alguma coisa que nos faz separar imediatamente a cultura e a filosofia oriental da ocidental. Não estou bem certo o que é. Talvez seja a mesma coisa que nos faz separar ciência da magia; religião de razão; fé da verdade.

O fato é que Ruth Ozeki conseguiu algo que eu achei que fosse impossível. Primeiro, escrever um livro que não só falasse sobre o zen budismo, mas que também incorporasse esse princípio na narrativa. Depois, unir, nessa narrativa, a mecânica quântica à descoberta do tempo pelo sujeito no zen.

É aqui que entra o meu questionamento do parágrafo anterior. E talvez eu tenha uma resposta. O zen é baseado no caminho. Conhecer-se é conhecer o caminho e conhecer o caminho é esquecer de si mesmo. A mecânica quântica acredita que nossa atuação (foco em ação) no tempo gera inúmeras possibilidades que nos levam a caminhos diferentes. Cada pequena ação no tempo bifurca o curso do próprio tempo, fazendo com que possamos existir em várias linhas temporais diferentes. Esquecendo de nós mesmos. Posso estar forçando a barra, mas talvez isso nem importe.

No livro, tudo começa quando Ruth, a personagem principal, encontra um saco, numa costa do Canadá, contendo um diário, algumas cartas e um relógio, vindos do Japão. Ao longo do livro ela tenta descobrir informações sobre Naoko (que escreveu o diário) e sua família, mas isso na verdade não importa.

Ruth experimenta, na leitura do diário, as várias possibilidades de existir no tempo. Parece, na verdade, que o diário está sendo escrito no momento em que, também, é lido.

E assim acompanhamos, ao mesmo tempo, a história de Naoko, descobrindo, por intermédio de sua tia-avó (uma monja de 104 anos) o zen, além de todas as dificuldades da vida de uma adolescente no Japão: a pressão por ser bem sucedida, o bullying, ou ijime, sofrido na escola, o isolamento e a visão (muito diferente da nossa) do suicídio.

E acompanhamos também Ruth, uma escritora de apenas um livro publicado, no meio de uma crise criativa, observando os dias se acumularem enquanto não consegue realizar nada de muito concreto, a não ser a leitura e a busca por Naoko.

O livro, obviamente, termina sem muitas respostas. Porque, na verdade, isso não importa. Ao concluir, você percebe a existências dessas personagens no tempo, e percebe a si mesmo como um ser-tempo. Existindo, agindo, conhecendo-se, trilhando o caminho e se esquecendo nele. O tempo é feito de momentos (cada estalar de dedos corresponde a 65 momentos, segundo o zen) e em cada um deles experimentamos 65 possibilidades de ser e existir como algo diferente.