As últimas testemunhas, Svetlana Aleksiévitch

Primeiro… vi um cavalo morto… Depois… uma mulher morta… Isso me surpreendeu. Eu imaginava que na guerra só matavam homens.

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(Filme) A bruxa

Esse fim de semana finalmente assisti “A bruxa”. Na época de seu lançamento, foi considerado o melhor filme de terror do ano. Demorei a assistir, mas não sei bem o motivo.

Histórias de bruxas me chamam atenção desde pequeno. Gosto da mitologia, das possibilidades e até estudei Wicca por um tempo.

O filme se passa ainda na época da colonização dos EUA, com uma família recém chegada da Inglaterra, que discordou da forma como os colonos da aldeia pregavam sobre Deus. Por este motivo, a família foi expulsa e é obrigada a viver próximo a uma floresta. Os rumores que culminariam nos sacrifícios das bruxas de Salem possivelmente já haviam começado, mas nada fica claro no filme.

Logo depois da mudança um dos filhos da família desaparece. Isso inicia toda uma onda de histeria que culmina com cada um da família sendo acusado pelos demais de ser uma bruxa.

Para um filme que tem por título “A bruxa”, essa personagem aparece apenas 3 vezes durante o filme inteiro e é retratado de forma muito comum (na minha opinião).

O filme está longe de ser um grande filme de terror, mas é um filme muito bom. Cenografia, fotografia e atuações excedem o esperado e a cena final é muito bonita e bem construída (se você gosta de bruxas) e até um pouco medonha (se você se impressiona fácil).

Pesa positivamente o fato de que o filme foi escrito de acordo com lendas, relatos e relatórios sobreviventes dessa época. Tendo diálogos, inclusive, sendo adaptados desse material.

inferno (1 e 2)

1

 

na encruzilhada dos dezesseis anos conjurei este demônio. minha vida cristã havia acabado enquanto eu arrastava meu corpo molestado por veredas e sendas da alma, cruzando quilômetros de estradas de barro.

 

2

 

abracei e calei a dor escondida bem fundo, junto com cores, flores e toda uma série de amores que fui ensinado a esquecer, pois ninguém me ouvia. busquei por todos os cactos daquela terra sombria, vendo passar as romarias de pessoas silenciadas, com olhos sobrenaturais abertos, rasgando o baixo-ventre chegando até a barriga. pensei sermos irmãos no silêncio, mas ninguém queria confraternizar com minha nova alma pagã, matando a sede nas cacimbas, comendo pedra moída, murmurando invocações terríveis, abandonando a vida.

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

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É muito comum ouvir dizer que Saramago é difícil de ler. E é mesmo. Uma prosa tão límpida, tão fluida e tão certeira, somada a um enredo tão chocante quanto o de “Ensaio sobre a cegueira” não poderia mesmo ser fácil. Mas Saramago vale a pena.

 

O que faz de nós humanos? Parece ser essa a pergunta que Saramago quer investigar. Digo investigar, porque mesmo sendo um romance (e sendo um romance capaz de tal investigação, apesar de não ser comum) o livro é, mesmo, um ensaio. Uma hipótese colocada em reflexão, relação, eu chegaria a dizer até mesmo em “crise”.

 

Um surto de cegueira repentina inicia sem parecer haver uma explicação. Mas essa cegueira é diferente. No lugar de ver tudo escuro, os cegos enxergam tudo branco, um mar de leite vasto, terrível e inumano, sendo a doença apelidada de “mal branco”.

 

A “doença” começa a se espalhar rápido, contagiando pessoas que tiveram alguma espécie de contato e deixando livre, abençoada ou não, apenas a mulher do oftalmologista que atendeu o primeiro cego horas depois de ter cegado.

 

O governo se desespera e isola em quarentena todos aqueles que já estão cegos ou que tiveram contato com algum deles. O exército é responsável pela logística, mas os desafortunados estão por conta própria, tendo que lidar sozinhos com questões de organização, higiene, alimentação e serviços funerários.

 

É a partir daí que Saramago parece exercer a visão de um ensaísta. Ele vai experimentando, criando situações em que investiga as possibilidades, deixando isso transparecer por vezes até na narrativa. E a vida dos miseráveis chega até o ponto extremo, tendo que lidar com o que há de mais profundo e escondido na condição humana, revelando os nossos piores lados, mas também os melhores.

 

O livro parece seguir uma espiral de desgraça, que se concentra e se intensifica, à medida em que as pessoas começam a se sentir cada vez menos pessoas e mais animais. Alguns comportamentos, inclusive, são exposto como o mais próximo do animalesco possível, fazendo coisas simples como defecar e tomar banho parecerem a mais complicada tarefa a se realizar na vida.

 

A sociedade colapsa, a estrutura política se estilhaça, a moral some quase completamente daquele país sem nome (pois pode ser qualquer um) na vida daquelas pessoas sem nome (pois são quase cobaias).

 

Saramago é cruel, mas com um propósito. Ele não teve medo de relativizar as certezas que nos fazem humanos. Não teve medo de expor o quão frágil é nossa certeza na nossa superioridade como espécie, como raça, como profissional, como familiar. Saramago nos expôs em nossa fragilidade, que é achar que somos superiores por sermos humanos.

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