O jardineiro

Estava acabando, bastava depositar a última pá de terra seca sobre o corpo já completamente escondido e estaria finalizado. O sol havia esquentado seus miolos e ele quase não era capaz de pensar.

Morava ali sozinho e fazia questão de enterrar todos os corpos que apareciam no que ele chamava de “meu jardim”. Era um jardineiro, não um coveiro. Convencia-se da paz no seu trabalho. Dava alguma dignidade àqueles que ele sequer sabia o nome. Não os nomeava, nem enumerava. O anonimato talvez fosse a única paz verdadeira para aqueles homens, mulheres e uma (única) criança. Com essa fora especial. Deu banho. Encontrou uma roupa ainda usável no lixão ao lado e a vestiu. O garotinho estava lindo, um anjinho indo direto para o céu. Amém.

Esfregou a testa escorrendo de suor. Sorriu para o seu trabalho bem feito. Olhou todas as outras covas e era isso. Fazia o bem a quem precisava. Era isso.

Guardou a pá no galpão improvisado de caixas de papelão onde estava tudo de que ele necessitava para seu trabalho.

A noite caiu veloz enquanto ele dormia na poltrona velha e desgastada em frente à grande TV de tubo. Tudo herdado do que as pessoas não queriam mais.

O jornal começou com a notícia principal. Um filho de alguém havia sumido. Ele se assustou quando viu o rosto do rapaz que havia enterrado hoje. Era ele. Tinha um nome. E essa era toda a desgraça.

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