Perto demais do sol

O clima mudou. Sentado na calçada do prédio, olhando as árvores do terreno baldio além do muro, sentiu aquele cheiro pouco familiar de chuva. Existem pessoas que nascem para o sol e no sol. Ele era uma dessas pessoas. Lá, numa cidade pequena e longe, viveu sua vida toda no sol. Às vezes chovia, mas era muito raro. Na maioria do tempo o chão fervilhava visivelmente. A cidade do sol, podia chamar assim. Mas qualquer cidade naquele estado parecia perto demais do sol.

Lembrou de quando era pequeno, num sítio de amigos de amigos de amigos de seus pais. Era uma festa, parece. Um casamento. Sem querer, esbarrou na mesa dos pratos e eles caíram se quebrando. Saiu correndo e os dois amigos foram atrás. Entraram na plantação alta de milho com o medo no encalço. Entraram bastante na plantação e depois de mais de meia hora, ainda sentindo o medo na nuca, sugeriu “vamos nos perder”.

Os olhos dos amigos brilharam com a aventura descoberta. Entraram mais no meio do milho, se coçando, rodando, tentando intencionalmente perder a direção da casa grande. Riam muito e se coçavam muito também. As peles já estavam bastante vermelhas do sol e da coceira da palha do milho. No sol. O milho não era dourado como nas histórias. Tinha uma cor morta e seca de algo que devia ser outra coisa. O sol era forte demais e qualquer coisa que passasse tanto tempo desprotegida na frescura de uma sombra queimava.

Por mais que tentassem eles não conseguiam se perder então desistiram e se sentaram no meio da plantação esturricando ao sol. Mexendo nas palhas secas e caídas e no estrume um dos amigos encontrou uma faca meio enferrujada. Ficou riscando o chão enquanto conversavam coisas de meninos no interior. O outro se levantou, desceu a bermuda surrada e começou a mijar no milho, “pra regar”, riram.

“Vocês já viram sangue?” disse o que estava com a faca na mão. Ninguém tinha visto, mesmo que os joelhos atestassem o contrário. Não sangue de verdade. Os dois amigos riram. O que tinha mijado no milho o segurou, imobilizando os braços e a cabeça. O outro com a faca se aproximou. Ambos riam enquanto ele gritava com o medo já descendo e subindo por sua garganta. O outro amigo aproximou a faca do seu ombro e rasgou sua camisa. Perto demais, ele pode olhar bem fundo nos olhos do menino e viu prazer. Foi ali que entendeu a maldade pura, apenas por maldade. Não era curiosidade. Não era inocência. Era maldade por prazer; prazer em ver sangue, em causar dor.

Depois cortou sua camisa e enfiou a faca em sua carne macia de menino. O sangue começou a escorrer imediatamente. Depois desceu, fazendo um risco por todo seu braço. Ele gritava de dor enquanto os amigos riam. Ele desviou o olhar do seu algoz e viu o sangue sob o sol. Era de um vermelho de coisa que era para ser o que era. Estavam longe o suficiente para que ninguém ouvisse seus gritos ou a risada dos outros meninos. Eram cúmplices, comparsas. Parecia que tinham imaginado uma coisa assim por muito tempo. Mesmo que muito tempo para uma criança de dez anos fosse algo difícil de imaginar.

Finalmente o soltaram e ele disparou exalando o medo junto com o cheiro de sangue que sujou as folhas do milho. Passou por toda a festa e ninguém o viu. Estavam ocupados com a noiva fazendo um discurso.

Rodou por aquilo que lhe pareceu uma eternidade entre as mesas até que alguém notou o sangue pingando do seu braço. Finalmente encontrou os pais e demorou uns dois segundos até que sua mãe percebesse o que estava acontecendo. Ele notou que os amigos já estavam ali, sentados, e se surpreendeu com a cara de surpresa deles. Aos gritos da mãe exigindo saber o que acontecera enquanto o levava para o carro ele só disse que havia se cortado quando derrubou os pratos. A mãe não acreditou, ele tinha certeza. Mas a urgência era muito grande para duvidar de uma criança sangrando.

A chuva começou a cair e ele passou os dedos pela cicatriz grande que tinha no ombro e descia até seu braço. Em dias de chuva, ela doía. Era assim que ele sabia que ia chover: a cicatriz doía.

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