Por que não agora? – poesia e o desejo do sagrado

            Nos últimos três anos, tenho voltado meu interesse de pesquisas para a poesia brasileira contemporânea. Busco, então, incansavelmente, tanto na internet quanto em livrarias e sites de livrarias, livros de poesia e de crítica a essa poesia. Encontrar poetas que publicam nos últimos dez anos (e que surgiram nos últimos dez anos também, já que meu interesse está na geração de poetas da qual eu consigo me sentir parte) não é tão difícil. Mas encontrar crítica (e teoria) sobre esses poetas e sua poesia é praticamente impossível.

            Primeiro temos o problema da classificação temporal: onde acabou, exatamente, o modernismo? Onde começou o pós-modernismo? Até onde ele vai? O que ele é? O contemporâneo dura quanto tempo?

            Dessa forma, cada pesquisador e autor parece ter uma ideia levemente diferente de quando é o contemporâneo (um dos temas que pretendo me debruçar sobre nos próximos anos é justamente esse) e de quem faz parte dele. Assim, os poetas mais recentes, publicando na internet e nos selos editoriais voltados a descobrir novos nomes para a poesia brasileira, praticamente são ignorados. Por um lado, parece justificável: são muito recentes, é difícil olhar para o exato segundo que dura o presente. Parece ser preciso esperar os anos. Quando busco por crítica de poesia contemporânea, o mais recente que encontro são textos sobre Antonio Cícero, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Brito, sem dúvida nenhuma, grandes nomes da nossa poesia, mas que tem uma carreira que remonta há muito antes daquele período que me interessa: os anos 90 e como eles mudaram nossa percepção de sujeito, de outro, de espaço, de tempo, enfim.

            Sem dúvida todos esses poetas continuam em atividade até hoje. Mas, mesmo assim, não são muitos os estudos sobre eles. E aí vem o segundo problema: quem é contemporâneo? A maioria dos estudos foca em Hilda Hilst e Ferreira Gullar. A poesia só foi até aí? Onde está Alice de Sant’Anna? Angélica Freitas? Bruna Beber? Vozes atuais que reverberam preocupações e reflexões muito atuais a respeito do estado de coisas nesse espaço eterno de transição que é o início do século XXI?

            De certa forma, não é de espantar que os estudos literários se preocupem com “quem é mais importante”. O que eu quero dizer com isso, é que a academia dá preferência sempre à consolidação de um nome. O que é paradoxal, pois Hilda lutou a vida inteira para ter essa consolidação e só conseguiu quando passou a escrever seus romances pornográficos. Quem consolida uma obra é sempre relativo, no nosso século, então, isso é ainda mais complicado.

            É aí que está o ponto central do texto: a academia vê a poesia como um sagrado. E a crítica produzida nas universidades busca esse sagrado de forma desvairada. Ora, o sagrado exige consenso para ser cultuado e reconhecido. Dessa forma, os poetas atuais ainda estão muito “na nossa cara” para receber esse tratamento privilegiado. Precisamos sempre, parece, esperar os anos dizerem se aquilo ali “tem liga”.

            Não nego que essa minha busca e meu interesse pela poesia produzida nos últimos dez anos de alguma forma também carrega essa marca do desejo de um sagrado. Mas, não sei exatamente porque, ela se volta para esse período específico e não tem pretensão nenhuma de eternidade, como o cânone pressupõe. Ela aceita o passageiro, já que é tudo que somos atualmente: passagem. Vivemos nesse espaço-tempo que é um recorrente agora. O passado é longe demais, o futuro é quase impossível, pois estamos presos demais no agora. Como disse Adriana Calcanhotto na introdução de sua antologia incompleta da poesia contemporânea: estamos “de dentro do agora”.

            Essa busca por uma poesia sagrada, sacralizada, já canônica, deixa de fora das pesquisas sobre literatura uma série de poetas que são importantes e atuam socialmente e virtualmente na vida de seus leitores. Parece que a pesquisa em literatura precisa ser sempre diacrônica, é preciso esperar a história chegar e validar ou legar ao esquecimento as coisas. Mas vivemos nesse agora, de dentro desse agora. Não vale a pena olhar, agora, para quem fala agora?

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Depois do baile verde

            A tarde caia e ele estava incomodado com o barulho das crianças do condomínio correndo. Sozinho e amargo. Que típico. A luz cortava a sala e se depositava bem acima de sua cabeça, alaranjada, com uns tons de rosa, que são as cores do pôr do sol no nordeste do país, meio lúgubre, o único momento em que parece ser outono logo abaixo da linha do Equador.

            O computador estava aberto em cima da mesa, ao lado de uma coca-cola pela metade e um salgado frito frio, alimentando as moscas. Ele olhava para a televisão desligada que, conectada ao sistema de som do Home-Theater fazia um zumbido constante e bastante audível, apesar de não ser alto.

            Era sábado de carnaval e ele escolhera permanecer em casa, sozinho. O gato estava jogado no canto do sofá, dormindo em cima de uma camisa esquecida que alguém havia jogado ali alguns dias atrás. O celular estava no silencioso, mas vibrava constantemente com mensagens deles ou dos vários grupos de amigos mostrando as fantasias coloridas e os sorrisos gigantes que usariam logo mais, quando a noite caísse. Iriam todos para a orla da praia, ouvir música e pular, com brilho nos olhos e por todo o corpo.

            Ele lembrou de um conto de Caio Fernando Abreu, onde dois homens são agredidos em um dia de carnaval, na orla de uma praia, por estarem flertando, ou se beijando, não lembrava. Sentiu medo por eles, os tempos não eram tão diferentes assim.

            Foi até a janela fumar um cigarro e viu as crianças que faziam tanto barulho, fantasiadas. Mulher-maravilha, capitão América e pantera negra. Soltou a fumaça e olhou para o cômodo que chamavam de escritório: poeira acumulada nos livros, a caixa de areia do gato suja, uma cama velha encostada em pé na parede e o sol fazendo desenhos quentes em todo lugar. Olhou para fora da janela e viu o traçado da luz recortar as folhas das árvores no terreno vizinho. Era bonito e solitário contemplar as coisas. Olhar era muito sozinho. Não dá para fazer alguém ver alguma coisa. Cada um vê da sua forma.

            As crianças deixaram muito lixo do lado de fora do prédio. O gato se aproximou exigindo comida. Ele o segurou no braço e o colocou na janela, onde ficou olhando os pássaros do fim do dia.

            Voltou para a sala e sentou-se no sofá quebrado. Olhou todos os cantos ao seu redor, estudou a luz para passar o tempo enquanto a noite caia e o escuro tomava conta de tudo. Não iria acender a luz. Esperaria. Esperaria o baile acabar.

Afinal de contas, precisamos mesmo definir o que é literatura?

Todo início de pesquisa literária esbarra na secular e difícil questão: o que é literatura? Diante dela, podemos tomar duas atitudes: gastar tempo e páginas e mais páginas, além de horas de leitura, tentando respondê-la; ou deixá-la de lado e assumir que literatura é aquilo que está nos livros, nas livrarias e nas aulas na escola e na universidade. Essa segunda posição baseia-se no senso comum sobre a literatura; é mais fácil e mais rápida. A primeira foca na visão da teoria literária, que é sempre relativista.

            Primeiro de tudo, quero deixar claro que considero como “teoria literária” o discurso sobre o discurso da literatura; ou seja, aquilo que dizemos ou pretendemos dizer sobre os textos que falam da literatura (seja crítica literária ou história literária). Essa visão se aproxima muito da definição de teoria literária de Antoine Compagnon, que vê na teoria uma guinada sempre relativista, irônica, derivativa dos discursos sobre a literatura.

            Isto posto, vamos às eternas questões: para quem é importante definir o que é literatura? Vejam, parece, inicialmente, que esta questão só diz respeito àquelas pessoas que constroem uma carreira acadêmica em cima do material literário. Afinal de contas, para um leitor, saber exatamente o que é literatura talvez não seja tão importante. Mas eu vejo de outra forma. Como um leitor (deixando de lado minha formação e meu trabalho com literatura) acho relevante entender o que é esse objeto que consumo e que me dá tanto prazer. Isso porque não quero doar meu tempo a qualquer coisa escrita e impressa num livro, pois dessa forma consigo guiar minha experiência para aquilo que tenho interesse. Óbvio que nem todo mundo pensa assim e realmente acredito que essa é uma visão muito elitista da literatura (mas isso é material para outro texto).

            Seguindo adiante: por que é importante definir o que é literatura? A princípio, parece que para nada. Afinal de contas isso não muda realmente e substancialmente o quadro da produção e da recepção da literatura. Seria uma questão mais voltada, de verdade, aos acadêmicos. Mas tomemos como base uma das últimas grandes vertentes de pensamento que se debruçaram sobre essa questão: o estruturalismo (não vou tratar aqui da teoria da recepção nem dos estudos culturais, pois meus estudos sobre essas teorias são muito básicos e não me sinto apto a falar sobre eles). O estruturalismo surgiu na França, por volta dos anos 1960-1970, ganhando força com as manifestações de 68 e encontrando um campo fértil para se espalhar. O estruturalismo injetou na sociedade e na academia a linguística e a psicanálise, olhando para quase todas as vertentes do conhecimento humano com essa nova visão. Naquele momento, definir o que era literatura ajudou o estruturalismo a moldar um conhecimento base aplicável que deu força aos movimentos sociais na França. Dessa forma, nesse momento (ou em momentos como esse), definir, classificar, teorizar sobre a literatura tem uma aplicabilidade. Mas depois dos anos 80, com o avanço de outras ciências (sociais, principalmente), o papel dos estudos literários diminuiu e a importância de se definir “o que é literatura?” foi deixada de lado. Ainda na esteira de pensamento de Compagnon, o destino da teoria é institucionalizar-se, ser transformada em pedagogia e, consequentemente, em senso comum, perdendo seu caráter relativista. Mas as questões permanecem. Por que ainda perguntamos o que é Literatura?

            A sociedade tem mudado muito mais rápido no último século. Não temos mais grandes períodos de pensamento livre e disseminação de conhecimento, porque a contracorrente da ignorância se alastra pela internet (vejamos o caso do movimento anti-vacina ou da terra plana, por exemplo).

            Dessa forma, nenhum pressuposto permanece por mais de duas décadas no senso comum. Logo ele é invalidado pela corrente da ignorância. Então continuamos sentindo necessidade de teorizar sobre questões como a que coloquei aqui.

            Assim, a necessidade é retornada, para construir novas bases de luta contra a ignorância generalizada. Precisamos constantemente nos perguntar “o que é literatura agora?” porque aquilo que considerávamos como literatura vinte anos atrás já foi desacreditado pela turba furiosa do relativismo vazio. Estamos sempre precisando nos questionar, porque nenhuma resposta resiste à facilidade com que a desinformação é produzida, afinal de contas ela não prescinde de pesquisa e sequer de pensamento (vide a pós-verdade).

            Neste momento, precisamos nos colocar a questão para nos resguardar da maré de ignorância que temos que lidar. Estamos mais uma vez em um momento, porém construído em condições diferentes talvez, em que precisamos das questões mais do que das respostas.

            A definição do que é literatura supera uma mera necessidade teórica e acadêmica. Pode parecer irrisório, mas qualquer tentativa de construir barreiras para parar o vazamento descontrolado da ignorância é necessário. Precisamos nos perguntar o que é literatura agora. Ela já foi muitas coisas e será muitas outras. Mas talvez a necessidade de defini-la nunca termine, pois há muito tempo não somos os mesmos de ontem e os monstros que precisamos derrotar metamorfoseiam-se diariamente em novas ameaças.

P.S.: talvez esse texto traga uma opinião divergente da sua. Que tal discutirmos civilizadamente? Deixe seu comentário e vamos construir conhecimento juntos.

A última sessão

Aninha trabalhava na bilheteria do luxuoso cinema há apenas três meses, mas de longe aquele era o melhor período de tempo que havia vivido desde que se entendia por gente. Olhava pessoas, falava com pessoas e podia viver as pessoas, era como ela pensava. Muito diferente de como era acordar às quatro da manhã para lavrar o chão no sítio da família. Trabalhando no cinema, ela ia dormir às quatro da manhã. E para ela isso era tudo.

            A cidade pequena vivia basicamente de agricultura, então quando contou aos pais que não queria mais trabalhar na terra, aquilo foi uma punhalada quase fatal. O pai ainda a tratava com muita reserva e a mãe só voltou a sorrir para ela faz duas semanas. Mas era o que Aninha queria. Ver os jovens, como ela, se empanturrando de pipoca e Coca-Cola. Não sentia vontade de estar no lugar deles: do outro lado do balcão. Achava que se podia aproveitar todo aquele jorro de energia vital e ainda conseguir dinheiro com isso, era isso que devia fazer. Então, não: não invejava. Estava onde devia estar.

            Às vezes saia correndo da bilheteria até a lanchonete para vender a pipoca, encher os copos com refrigerante e separar os chocolates. Depois voltava correndo até a bilheteria. Fazia isso porque gostava. O patrão não reclamava. Era como ter dois funcionários pelo preço de um. E mesmo que os clientes reclamassem que às vezes tinham que esperar alguns minutos enquanto Aninha estava atendendo em outro lugar, ele não se importava. Era lucro, de alguma forma. E a reclamação de um ou outro cliente não faria mal. Aninha era boa no que fazia. E nem ocupava o lugar que tinha direito na última sessão noturna, cortesia do trabalho. Nem comia a pipoca e nem tomava a Coca-Cola. É, não tinha do que reclamar.

            Quando o último cliente comprava o último saco de pipoca, Aninha começava a varrer a entrada do cinema. A rua já estava deserta, ela era a única por ali. Todos os outros ou estavam em casa dormindo se preparando para o trabalho no outro dia, ou estavam no cinema, ou estavam nas ruas escuras se agarrando. Ela ficava feliz de estar ali.

            Apesar de a cidade ser pequena, nenhum dos frequentadores do cinema a conhecia. Estudara com alguns, mas seus pais preferiram, depois do primeiro ano escolar, mantê-la na pequena escola rural junto com os filhos dos outros agricultores. Então nem se lembrava de ninguém. Talvez um nome. Mas um nome é só um nome se não vem acompanhado de um rosto ou uma história.

            Aninha fazia o mesmo horário sempre, exceto no sétimo dia corrido de trabalho, quando tinha folga. Nesses dias ficava em casa, ajudava a mãe com algumas tarefas domésticas, dava dinheiro ao pai para comprar algo mais além do que aquilo que a terra era capaz de produzir. Mas em geral, ficava na cama, ouvindo o barulho dos irmãos, sentindo o cheiro da sopa ou do queijo fresco feitos pela mãe. Não ouvia música. Não lia livros. Nem saia de casa para ir ao cinema ou à cidade. Apenas esperava que aquele dia acabasse e ela pudesse voltar a trabalhar no dia seguinte.

            Entrava no trabalho sempre às quatro da tarde, a tempo suficiente para vender os bilhetes e os lanches para a sessão das cinco horas. Varria a entrada, olhava o sol se pondo, sentia o resto do calor indo embora no meio da cidade e o frio chegar cortante.

            Recebia a todos sempre com um sorriso e mesmo que ficasse muito atarefada indo de um balcão para outro, não se pode negar que Aninha gostava daquele trabalho.

            Passara anos ali a ponto de ser conhecida como a mulher do cinema. Já tinha quase trinta anos e nunca tivera um namorado ou vivera qualquer outra coisa que não seu trabalho. Estava satisfeita e era tudo de que precisava. Todos os seus irmãos já tinham saído de casa e agora ela morava sozinha com os pais, já velhos, vivendo apenas do dinheiro que Aninha ganhava no trabalho. Pararam de reclamar alguns anos atrás, quando perceberam que não poderiam viver do sítio para sempre, afinal de contas estavam velhos e os outros filhos tinham ido embora.

            Só ela ficou. Como era também só ela ficava depois da última sessão para limpar, fechar e aprontar tudo para o rapaz que cuidava do cinema nas primeiras sessões do dia.

            O cinema já não tinha mais a mesma clientela. A televisão roubou grande parte dos jovens enamorados que pagavam uma mixaria para poderem namorar no escuro sem prestar atenção no filme. Numa cidade pequena como aquela, um negócio como um cinema não se sustentaria mais por muito tempo se alguma coisa não mudasse. E não mudou.

            O proprietário reuniu a pequena para anunciar que infelizmente fecharia as portas. Para Aninha essa notícia era péssima. Na verdade, era mais que isso. Dedicara sua vida inteira àquele trabalho e agora não teria nada mais. Os pais dependiam dela e ela dependia daquele cinema. O dono marcou a última sessão para dali a três dias. Então tudo acabaria.

            A notícia avassalou a cidade. A prefeitura não se importou. Saudosistas se juntavam na calçada para falar como era bom aquele tempo em que iam ao cinema comer pipoca com Coca-Cola e se apalpar por baixo dos jeans apertados sem que ninguém visse ou fingisse que não via. Mas no dia em que tudo acabaria, a notícia já era velha e ninguém de fato se importou. A não ser Aninha.

            Para a última sessão fez o cabelo e as unhas, usou uma maquiagem discreta, estava com o uniforme impecável. De alguma forma, queria dar a impressão (para ela mesma) que nada mudaria. Então sorriu bastante para todos os dez clientes que compraram os ingressos. Vendeu apenas uma pipoca e um refrigerante e nenhum chocolate.

            Quando acabou ela limpou tudo, conferiu o dinheiro no caixa, deixou na sala da administração junto com o uniforme e o crachá e saiu andando pela rua de cabeça baixa. Como sempre não havia ninguém. Aninha olhou para cima e viu a grande lua que iluminava as ruas escuras da cidade. Decidiu pegar um atalho que encurtava a parte do caminho que tinha que percorrer dentro da cidade e que a levava até a estrada de barro que ligava a cidade à zona rural.

            Ali Aninha desapareceu.

            Os pais foram, no outro dia, até a casa do dono do finado cinema pedir por informações dizendo que a filha nunca chegou em casa. O dono falou que Aninha saiu do prédio logo depois de fecharem e pareceu fazer o caminho normal para casa, mas que ninguém a havia acompanhado, como sempre.

            A polícia procurou por uma semana. Aninha foi notícia na cidade por quatro dias e depois disso passou a ser conhecida apenas como aquela moça do cinema que desapareceu e ninguém nunca mais achou.

Perto demais do sol

O clima mudou. Sentado na calçada do prédio, olhando as árvores do terreno baldio além do muro, sentiu aquele cheiro pouco familiar de chuva. Existem pessoas que nascem para o sol e no sol. Ele era uma dessas pessoas. Lá, numa cidade pequena e longe, viveu sua vida toda no sol. Às vezes chovia, mas era muito raro. Na maioria do tempo o chão fervilhava visivelmente. A cidade do sol, podia chamar assim. Mas qualquer cidade naquele estado parecia perto demais do sol.

Lembrou de quando era pequeno, num sítio de amigos de amigos de amigos de seus pais. Era uma festa, parece. Um casamento. Sem querer, esbarrou na mesa dos pratos e eles caíram se quebrando. Saiu correndo e os dois amigos foram atrás. Entraram na plantação alta de milho com o medo no encalço. Entraram bastante na plantação e depois de mais de meia hora, ainda sentindo o medo na nuca, sugeriu “vamos nos perder”.

Os olhos dos amigos brilharam com a aventura descoberta. Entraram mais no meio do milho, se coçando, rodando, tentando intencionalmente perder a direção da casa grande. Riam muito e se coçavam muito também. As peles já estavam bastante vermelhas do sol e da coceira da palha do milho. No sol. O milho não era dourado como nas histórias. Tinha uma cor morta e seca de algo que devia ser outra coisa. O sol era forte demais e qualquer coisa que passasse tanto tempo desprotegida na frescura de uma sombra queimava.

Por mais que tentassem eles não conseguiam se perder então desistiram e se sentaram no meio da plantação esturricando ao sol. Mexendo nas palhas secas e caídas e no estrume um dos amigos encontrou uma faca meio enferrujada. Ficou riscando o chão enquanto conversavam coisas de meninos no interior. O outro se levantou, desceu a bermuda surrada e começou a mijar no milho, “pra regar”, riram.

“Vocês já viram sangue?” disse o que estava com a faca na mão. Ninguém tinha visto, mesmo que os joelhos atestassem o contrário. Não sangue de verdade. Os dois amigos riram. O que tinha mijado no milho o segurou, imobilizando os braços e a cabeça. O outro com a faca se aproximou. Ambos riam enquanto ele gritava com o medo já descendo e subindo por sua garganta. O outro amigo aproximou a faca do seu ombro e rasgou sua camisa. Perto demais, ele pode olhar bem fundo nos olhos do menino e viu prazer. Foi ali que entendeu a maldade pura, apenas por maldade. Não era curiosidade. Não era inocência. Era maldade por prazer; prazer em ver sangue, em causar dor.

Depois cortou sua camisa e enfiou a faca em sua carne macia de menino. O sangue começou a escorrer imediatamente. Depois desceu, fazendo um risco por todo seu braço. Ele gritava de dor enquanto os amigos riam. Ele desviou o olhar do seu algoz e viu o sangue sob o sol. Era de um vermelho de coisa que era para ser o que era. Estavam longe o suficiente para que ninguém ouvisse seus gritos ou a risada dos outros meninos. Eram cúmplices, comparsas. Parecia que tinham imaginado uma coisa assim por muito tempo. Mesmo que muito tempo para uma criança de dez anos fosse algo difícil de imaginar.

Finalmente o soltaram e ele disparou exalando o medo junto com o cheiro de sangue que sujou as folhas do milho. Passou por toda a festa e ninguém o viu. Estavam ocupados com a noiva fazendo um discurso.

Rodou por aquilo que lhe pareceu uma eternidade entre as mesas até que alguém notou o sangue pingando do seu braço. Finalmente encontrou os pais e demorou uns dois segundos até que sua mãe percebesse o que estava acontecendo. Ele notou que os amigos já estavam ali, sentados, e se surpreendeu com a cara de surpresa deles. Aos gritos da mãe exigindo saber o que acontecera enquanto o levava para o carro ele só disse que havia se cortado quando derrubou os pratos. A mãe não acreditou, ele tinha certeza. Mas a urgência era muito grande para duvidar de uma criança sangrando.

A chuva começou a cair e ele passou os dedos pela cicatriz grande que tinha no ombro e descia até seu braço. Em dias de chuva, ela doía. Era assim que ele sabia que ia chover: a cicatriz doía.

Talvez Clarice…

Talvez Clarice tivesse uma cadeira no quarto, que acomodasse confortavelmente seu corpo e de onde pudesse olhar o fim da tarde pela pequena janela de seu quarto de dormir. Talvez acomodasse seu queixo suavemente nas costas da mão esquerda, enquanto segurava o cigarro com a mão direita que talvez tremesse levemente, o que poderia sugerir toda uma série de questões metafísicas pela suavidade com que cumpria esse gesto, mas que talvez, na verdade, fosse só um grande suspiro de cansaço encenado com todo o corpo. A tarde morrendo e Clarice, talvez, orando àquele Deus que ela tanto buscou nas palavras, enquanto olhava desconfiada para sua máquina de escrever.

Talvez ela pensasse em algo que queria escrever. Ou talvez, suspirando, apenas esperasse pelo fim de mais um dia, suas costas muito retas segurando um peso inominável como Deus. Talvez Clarice pensasse demais em Deus. Talvez segurasse o braço envernizado na cadeira, ou talvez suas mãos estivessem em outra posição que sugerisse uma profundidade emocional que ela se repreendesse por não conseguir esconder.

Talvez passasse muito tempo ali. Ou talvez se levantasse e seguisse lentamente até a cozinha, sentindo-se bastante cansada como disse que estava, com suas sobrancelhas sugerindo raiva, mas seus movimentos sugerindo tristeza.

Talvez estivesse sozinha depois de muito pedir por isso. Fazer com que o mundo externo entrasse em compasso com o mundo interno.

Ou talvez não. Talvez estivesse atormentada demais com uma população mundial de baratas, ou de ovos que não são ovos, mas são. Talvez Clarice nunca conseguisse se sentir sozinha. E se arrependesse bastante por matar muitos peixes metafóricos. Talvez sua solidão fosse de outra espécie. A solidão de quem não fala a língua dos outros. Um falar e falar que jamais seria entender. Talvez sua solidão esbarrasse na sua máquina de escrever e ela decidisse, mesmo que se arrependesse depois, que era melhor falar como ela falava, ou seja, escrevendo, porque falar como os outros falavam não era o que ela queria.

Não que ela estivesse buscando por uma voz interior. Talvez Clarice soubesse muito bem onde estava essa voz, que talvez fosse deus, ou uma barata ou um ovo. Talvez ela não quisesse falar com essa voz, mesmo que depois quisesse e fosse esse querer não querendo que a deixasse triste.

Talvez Clarice passasse por um espelho e verificasse se ainda era mulher e humana, ou se já teria se dissolvido numa massa de qualquer coisa que seria aquilo que o resto do mundo teria dela, por meio do que escrevesse, que ela queria e não queria. Talvez Clarice quisesse ser outra mulher ou até mesmo outra coisa, como um ovo.

Talvez tivesse seus pensamentos interrompidos por tiros bem no momento em que desejaria ser a menor mulher do mundo, mas não em tamanho e sim em expansão. Desejaria, antes daquele tiro, ser uma mulher que não ocupasse nada mais além do espaço que era seu, que talvez fosse deus.

Talvez Clarice tivesse uma sacada ou uma varanda com uma cadeira acolchoada e uma mesinha onde depositar uma bebida bem gelada para escapar do calor do Rio; não sei, não quero pesquisar. Talvez andando lentamente pela casa, com um vestido bem cortado e de tom sóbrio, os cabelos bem arrumados e o rosto com pouca maquiagem, ela chegasse até lá. Talvez virasse o corpo, como imaginando como seria cair. O que sentiria antes de atingir o chão, se seria como flutuar por um instante antes do horror da queda e do baque dos seus ossos se quebrando.

Talvez ela olhasse ao redor, em busca do que pudesse enxergar. Talvez quisesse sentir alguma felicidade ali, uma felicidade sorrateira que invadiria as portas da sua alma, espírito, etc., e se colocaria em algum lugar escondido de seu corpo, clandestina.

Na tarde já morrendo ela olharia para aquela terra que era sua, mas não era. Desterrada, procuraria em todos os pequenos detalhes uma espécie de reconhecimento, um sentimento de lar. Talvez ela tentasse estampar no rosto um sorriso ambíguo, Mona Lisa imigrante, querendo que quem passasse lá embaixo olhasse para cima e tivesse sua vida completamente alterada por algo que ela imaginaria ser seu sorriso, mas que na verdade, talvez, fosse uma nuvem em formato de um cachorrinho.

Talvez voltasse à cozinha e passasse um café enquanto o cheiro amargo se misturasse com uma vontade de ir ao cinema ou de ler um livro, Hermann Hesse talvez. Mas na verdade iria pegar uma xícara e voltar ao seu quarto, sentar na cadeira virada para a janela e ver o resto da luz sumir, sem se importar com o tiro, ou com o que pudesse escrever porque a voz dela, a voz que ela já havia encontrado dentro de si e que era deus, talvez fosse o suficiente para aquele dia. E ela não quisesse passar por mais um dia, talvez pensasse isso olhando para a mão queimada. Talvez não quisesse mais um dia, mas era o que tinha e talvez fosse aceitar a angustiante vontade do tempo, que lhe daria, talvez, justamente aquilo que ela não queria: mais um dia.

inimigos imaginários

O anjo ferido
Hugo Simberg
1903

Imagine a cena. Uma esquina, sol alto, depois do meio-dia. Tudo estático, mas parece que o som do baque quando o pequeno corpo caiu e quebrou a asa ainda está no ar. Se você olhar na altura do horizonte poderá ver alguns dos rostos que assomaram rapidamente ao ribombar de algo que pareceu um trovão. E aí você verá o ódio, fervilhando nas máscaras cotidianas, quase insustentável de tão quente. O ódio direcionado àquela criatura luminosa, nua, pequena, com uma asa e uma perna quebradas, mergulhada no próprio sangue muito humano.

E se aproximando uma arma e um fim.

nome


Poor Lisa
Orest Kiprensky
Date: 1827

Rosa era um nome de pobre. O que condizia com a realidade, pois ela nascera pobre. Uma casa só, quatro famílias, amontoadas. Daquele ninho não saiu muita coisa. A não ser a morte, que abundou por ali.

Quando adolescente ela resolveu que não. Passou anos peregrinando em diferentes misérias, vendendo-se aos poucos: o sono, o tempo, a paz, a alma. Só não o corpo, esse conservaria.

Não foi pelo esforço que conseguiu mudar sua condição. Apesar de ter se convencido de que seria só uma questão de tempo. Antes, teve a sorte de encontrar uma maleta cheia de dinheiro. Soube como multiplicar o que achou. Mas acabou vendendo também o corpo. E o dinheiro não tinha gosto.

No fim só restou o nome. Rosa. Que era de pobre.