A última sessão

Aninha trabalhava na bilheteria do luxuoso cinema há apenas três meses, mas de longe aquele era o melhor período de tempo que havia vivido desde que se entendia por gente. Olhava pessoas, falava com pessoas e podia viver as pessoas, era como ela pensava. Muito diferente de como era acordar às quatro da manhã para lavrar o chão no sítio da família. Trabalhando no cinema, ela ia dormir às quatro da manhã. E para ela isso era tudo.

            A cidade pequena vivia basicamente de agricultura, então quando contou aos pais que não queria mais trabalhar na terra, aquilo foi uma punhalada quase fatal. O pai ainda a tratava com muita reserva e a mãe só voltou a sorrir para ela faz duas semanas. Mas era o que Aninha queria. Ver os jovens, como ela, se empanturrando de pipoca e Coca-Cola. Não sentia vontade de estar no lugar deles: do outro lado do balcão. Achava que se podia aproveitar todo aquele jorro de energia vital e ainda conseguir dinheiro com isso, era isso que devia fazer. Então, não: não invejava. Estava onde devia estar.

            Às vezes saia correndo da bilheteria até a lanchonete para vender a pipoca, encher os copos com refrigerante e separar os chocolates. Depois voltava correndo até a bilheteria. Fazia isso porque gostava. O patrão não reclamava. Era como ter dois funcionários pelo preço de um. E mesmo que os clientes reclamassem que às vezes tinham que esperar alguns minutos enquanto Aninha estava atendendo em outro lugar, ele não se importava. Era lucro, de alguma forma. E a reclamação de um ou outro cliente não faria mal. Aninha era boa no que fazia. E nem ocupava o lugar que tinha direito na última sessão noturna, cortesia do trabalho. Nem comia a pipoca e nem tomava a Coca-Cola. É, não tinha do que reclamar.

            Quando o último cliente comprava o último saco de pipoca, Aninha começava a varrer a entrada do cinema. A rua já estava deserta, ela era a única por ali. Todos os outros ou estavam em casa dormindo se preparando para o trabalho no outro dia, ou estavam no cinema, ou estavam nas ruas escuras se agarrando. Ela ficava feliz de estar ali.

            Apesar de a cidade ser pequena, nenhum dos frequentadores do cinema a conhecia. Estudara com alguns, mas seus pais preferiram, depois do primeiro ano escolar, mantê-la na pequena escola rural junto com os filhos dos outros agricultores. Então nem se lembrava de ninguém. Talvez um nome. Mas um nome é só um nome se não vem acompanhado de um rosto ou uma história.

            Aninha fazia o mesmo horário sempre, exceto no sétimo dia corrido de trabalho, quando tinha folga. Nesses dias ficava em casa, ajudava a mãe com algumas tarefas domésticas, dava dinheiro ao pai para comprar algo mais além do que aquilo que a terra era capaz de produzir. Mas em geral, ficava na cama, ouvindo o barulho dos irmãos, sentindo o cheiro da sopa ou do queijo fresco feitos pela mãe. Não ouvia música. Não lia livros. Nem saia de casa para ir ao cinema ou à cidade. Apenas esperava que aquele dia acabasse e ela pudesse voltar a trabalhar no dia seguinte.

            Entrava no trabalho sempre às quatro da tarde, a tempo suficiente para vender os bilhetes e os lanches para a sessão das cinco horas. Varria a entrada, olhava o sol se pondo, sentia o resto do calor indo embora no meio da cidade e o frio chegar cortante.

            Recebia a todos sempre com um sorriso e mesmo que ficasse muito atarefada indo de um balcão para outro, não se pode negar que Aninha gostava daquele trabalho.

            Passara anos ali a ponto de ser conhecida como a mulher do cinema. Já tinha quase trinta anos e nunca tivera um namorado ou vivera qualquer outra coisa que não seu trabalho. Estava satisfeita e era tudo de que precisava. Todos os seus irmãos já tinham saído de casa e agora ela morava sozinha com os pais, já velhos, vivendo apenas do dinheiro que Aninha ganhava no trabalho. Pararam de reclamar alguns anos atrás, quando perceberam que não poderiam viver do sítio para sempre, afinal de contas estavam velhos e os outros filhos tinham ido embora.

            Só ela ficou. Como era também só ela ficava depois da última sessão para limpar, fechar e aprontar tudo para o rapaz que cuidava do cinema nas primeiras sessões do dia.

            O cinema já não tinha mais a mesma clientela. A televisão roubou grande parte dos jovens enamorados que pagavam uma mixaria para poderem namorar no escuro sem prestar atenção no filme. Numa cidade pequena como aquela, um negócio como um cinema não se sustentaria mais por muito tempo se alguma coisa não mudasse. E não mudou.

            O proprietário reuniu a pequena para anunciar que infelizmente fecharia as portas. Para Aninha essa notícia era péssima. Na verdade, era mais que isso. Dedicara sua vida inteira àquele trabalho e agora não teria nada mais. Os pais dependiam dela e ela dependia daquele cinema. O dono marcou a última sessão para dali a três dias. Então tudo acabaria.

            A notícia avassalou a cidade. A prefeitura não se importou. Saudosistas se juntavam na calçada para falar como era bom aquele tempo em que iam ao cinema comer pipoca com Coca-Cola e se apalpar por baixo dos jeans apertados sem que ninguém visse ou fingisse que não via. Mas no dia em que tudo acabaria, a notícia já era velha e ninguém de fato se importou. A não ser Aninha.

            Para a última sessão fez o cabelo e as unhas, usou uma maquiagem discreta, estava com o uniforme impecável. De alguma forma, queria dar a impressão (para ela mesma) que nada mudaria. Então sorriu bastante para todos os dez clientes que compraram os ingressos. Vendeu apenas uma pipoca e um refrigerante e nenhum chocolate.

            Quando acabou ela limpou tudo, conferiu o dinheiro no caixa, deixou na sala da administração junto com o uniforme e o crachá e saiu andando pela rua de cabeça baixa. Como sempre não havia ninguém. Aninha olhou para cima e viu a grande lua que iluminava as ruas escuras da cidade. Decidiu pegar um atalho que encurtava a parte do caminho que tinha que percorrer dentro da cidade e que a levava até a estrada de barro que ligava a cidade à zona rural.

            Ali Aninha desapareceu.

            Os pais foram, no outro dia, até a casa do dono do finado cinema pedir por informações dizendo que a filha nunca chegou em casa. O dono falou que Aninha saiu do prédio logo depois de fecharem e pareceu fazer o caminho normal para casa, mas que ninguém a havia acompanhado, como sempre.

            A polícia procurou por uma semana. Aninha foi notícia na cidade por quatro dias e depois disso passou a ser conhecida apenas como aquela moça do cinema que desapareceu e ninguém nunca mais achou.

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Perto demais do sol

O clima mudou. Sentado na calçada do prédio, olhando as árvores do terreno baldio além do muro, sentiu aquele cheiro pouco familiar de chuva. Existem pessoas que nascem para o sol e no sol. Ele era uma dessas pessoas. Lá, numa cidade pequena e longe, viveu sua vida toda no sol. Às vezes chovia, mas era muito raro. Na maioria do tempo o chão fervilhava visivelmente. A cidade do sol, podia chamar assim. Mas qualquer cidade naquele estado parecia perto demais do sol.

Lembrou de quando era pequeno, num sítio de amigos de amigos de amigos de seus pais. Era uma festa, parece. Um casamento. Sem querer, esbarrou na mesa dos pratos e eles caíram se quebrando. Saiu correndo e os dois amigos foram atrás. Entraram na plantação alta de milho com o medo no encalço. Entraram bastante na plantação e depois de mais de meia hora, ainda sentindo o medo na nuca, sugeriu “vamos nos perder”.

Os olhos dos amigos brilharam com a aventura descoberta. Entraram mais no meio do milho, se coçando, rodando, tentando intencionalmente perder a direção da casa grande. Riam muito e se coçavam muito também. As peles já estavam bastante vermelhas do sol e da coceira da palha do milho. No sol. O milho não era dourado como nas histórias. Tinha uma cor morta e seca de algo que devia ser outra coisa. O sol era forte demais e qualquer coisa que passasse tanto tempo desprotegida na frescura de uma sombra queimava.

Por mais que tentassem eles não conseguiam se perder então desistiram e se sentaram no meio da plantação esturricando ao sol. Mexendo nas palhas secas e caídas e no estrume um dos amigos encontrou uma faca meio enferrujada. Ficou riscando o chão enquanto conversavam coisas de meninos no interior. O outro se levantou, desceu a bermuda surrada e começou a mijar no milho, “pra regar”, riram.

“Vocês já viram sangue?” disse o que estava com a faca na mão. Ninguém tinha visto, mesmo que os joelhos atestassem o contrário. Não sangue de verdade. Os dois amigos riram. O que tinha mijado no milho o segurou, imobilizando os braços e a cabeça. O outro com a faca se aproximou. Ambos riam enquanto ele gritava com o medo já descendo e subindo por sua garganta. O outro amigo aproximou a faca do seu ombro e rasgou sua camisa. Perto demais, ele pode olhar bem fundo nos olhos do menino e viu prazer. Foi ali que entendeu a maldade pura, apenas por maldade. Não era curiosidade. Não era inocência. Era maldade por prazer; prazer em ver sangue, em causar dor.

Depois cortou sua camisa e enfiou a faca em sua carne macia de menino. O sangue começou a escorrer imediatamente. Depois desceu, fazendo um risco por todo seu braço. Ele gritava de dor enquanto os amigos riam. Ele desviou o olhar do seu algoz e viu o sangue sob o sol. Era de um vermelho de coisa que era para ser o que era. Estavam longe o suficiente para que ninguém ouvisse seus gritos ou a risada dos outros meninos. Eram cúmplices, comparsas. Parecia que tinham imaginado uma coisa assim por muito tempo. Mesmo que muito tempo para uma criança de dez anos fosse algo difícil de imaginar.

Finalmente o soltaram e ele disparou exalando o medo junto com o cheiro de sangue que sujou as folhas do milho. Passou por toda a festa e ninguém o viu. Estavam ocupados com a noiva fazendo um discurso.

Rodou por aquilo que lhe pareceu uma eternidade entre as mesas até que alguém notou o sangue pingando do seu braço. Finalmente encontrou os pais e demorou uns dois segundos até que sua mãe percebesse o que estava acontecendo. Ele notou que os amigos já estavam ali, sentados, e se surpreendeu com a cara de surpresa deles. Aos gritos da mãe exigindo saber o que acontecera enquanto o levava para o carro ele só disse que havia se cortado quando derrubou os pratos. A mãe não acreditou, ele tinha certeza. Mas a urgência era muito grande para duvidar de uma criança sangrando.

A chuva começou a cair e ele passou os dedos pela cicatriz grande que tinha no ombro e descia até seu braço. Em dias de chuva, ela doía. Era assim que ele sabia que ia chover: a cicatriz doía.

Talvez Clarice…

Talvez Clarice tivesse uma cadeira no quarto, que acomodasse confortavelmente seu corpo e de onde pudesse olhar o fim da tarde pela pequena janela de seu quarto de dormir. Talvez acomodasse seu queixo suavemente nas costas da mão esquerda, enquanto segurava o cigarro com a mão direita que talvez tremesse levemente, o que poderia sugerir toda uma série de questões metafísicas pela suavidade com que cumpria esse gesto, mas que talvez, na verdade, fosse só um grande suspiro de cansaço encenado com todo o corpo. A tarde morrendo e Clarice, talvez, orando àquele Deus que ela tanto buscou nas palavras, enquanto olhava desconfiada para sua máquina de escrever.

Talvez ela pensasse em algo que queria escrever. Ou talvez, suspirando, apenas esperasse pelo fim de mais um dia, suas costas muito retas segurando um peso inominável como Deus. Talvez Clarice pensasse demais em Deus. Talvez segurasse o braço envernizado na cadeira, ou talvez suas mãos estivessem em outra posição que sugerisse uma profundidade emocional que ela se repreendesse por não conseguir esconder.

Talvez passasse muito tempo ali. Ou talvez se levantasse e seguisse lentamente até a cozinha, sentindo-se bastante cansada como disse que estava, com suas sobrancelhas sugerindo raiva, mas seus movimentos sugerindo tristeza.

Talvez estivesse sozinha depois de muito pedir por isso. Fazer com que o mundo externo entrasse em compasso com o mundo interno.

Ou talvez não. Talvez estivesse atormentada demais com uma população mundial de baratas, ou de ovos que não são ovos, mas são. Talvez Clarice nunca conseguisse se sentir sozinha. E se arrependesse bastante por matar muitos peixes metafóricos. Talvez sua solidão fosse de outra espécie. A solidão de quem não fala a língua dos outros. Um falar e falar que jamais seria entender. Talvez sua solidão esbarrasse na sua máquina de escrever e ela decidisse, mesmo que se arrependesse depois, que era melhor falar como ela falava, ou seja, escrevendo, porque falar como os outros falavam não era o que ela queria.

Não que ela estivesse buscando por uma voz interior. Talvez Clarice soubesse muito bem onde estava essa voz, que talvez fosse deus, ou uma barata ou um ovo. Talvez ela não quisesse falar com essa voz, mesmo que depois quisesse e fosse esse querer não querendo que a deixasse triste.

Talvez Clarice passasse por um espelho e verificasse se ainda era mulher e humana, ou se já teria se dissolvido numa massa de qualquer coisa que seria aquilo que o resto do mundo teria dela, por meio do que escrevesse, que ela queria e não queria. Talvez Clarice quisesse ser outra mulher ou até mesmo outra coisa, como um ovo.

Talvez tivesse seus pensamentos interrompidos por tiros bem no momento em que desejaria ser a menor mulher do mundo, mas não em tamanho e sim em expansão. Desejaria, antes daquele tiro, ser uma mulher que não ocupasse nada mais além do espaço que era seu, que talvez fosse deus.

Talvez Clarice tivesse uma sacada ou uma varanda com uma cadeira acolchoada e uma mesinha onde depositar uma bebida bem gelada para escapar do calor do Rio; não sei, não quero pesquisar. Talvez andando lentamente pela casa, com um vestido bem cortado e de tom sóbrio, os cabelos bem arrumados e o rosto com pouca maquiagem, ela chegasse até lá. Talvez virasse o corpo, como imaginando como seria cair. O que sentiria antes de atingir o chão, se seria como flutuar por um instante antes do horror da queda e do baque dos seus ossos se quebrando.

Talvez ela olhasse ao redor, em busca do que pudesse enxergar. Talvez quisesse sentir alguma felicidade ali, uma felicidade sorrateira que invadiria as portas da sua alma, espírito, etc., e se colocaria em algum lugar escondido de seu corpo, clandestina.

Na tarde já morrendo ela olharia para aquela terra que era sua, mas não era. Desterrada, procuraria em todos os pequenos detalhes uma espécie de reconhecimento, um sentimento de lar. Talvez ela tentasse estampar no rosto um sorriso ambíguo, Mona Lisa imigrante, querendo que quem passasse lá embaixo olhasse para cima e tivesse sua vida completamente alterada por algo que ela imaginaria ser seu sorriso, mas que na verdade, talvez, fosse uma nuvem em formato de um cachorrinho.

Talvez voltasse à cozinha e passasse um café enquanto o cheiro amargo se misturasse com uma vontade de ir ao cinema ou de ler um livro, Hermann Hesse talvez. Mas na verdade iria pegar uma xícara e voltar ao seu quarto, sentar na cadeira virada para a janela e ver o resto da luz sumir, sem se importar com o tiro, ou com o que pudesse escrever porque a voz dela, a voz que ela já havia encontrado dentro de si e que era deus, talvez fosse o suficiente para aquele dia. E ela não quisesse passar por mais um dia, talvez pensasse isso olhando para a mão queimada. Talvez não quisesse mais um dia, mas era o que tinha e talvez fosse aceitar a angustiante vontade do tempo, que lhe daria, talvez, justamente aquilo que ela não queria: mais um dia.

inimigos imaginários

O anjo ferido
Hugo Simberg
1903

Imagine a cena. Uma esquina, sol alto, depois do meio-dia. Tudo estático, mas parece que o som do baque quando o pequeno corpo caiu e quebrou a asa ainda está no ar. Se você olhar na altura do horizonte poderá ver alguns dos rostos que assomaram rapidamente ao ribombar de algo que pareceu um trovão. E aí você verá o ódio, fervilhando nas máscaras cotidianas, quase insustentável de tão quente. O ódio direcionado àquela criatura luminosa, nua, pequena, com uma asa e uma perna quebradas, mergulhada no próprio sangue muito humano.

E se aproximando uma arma e um fim.

nome


Poor Lisa
Orest Kiprensky
Date: 1827

Rosa era um nome de pobre. O que condizia com a realidade, pois ela nascera pobre. Uma casa só, quatro famílias, amontoadas. Daquele ninho não saiu muita coisa. A não ser a morte, que abundou por ali.

Quando adolescente ela resolveu que não. Passou anos peregrinando em diferentes misérias, vendendo-se aos poucos: o sono, o tempo, a paz, a alma. Só não o corpo, esse conservaria.

Não foi pelo esforço que conseguiu mudar sua condição. Apesar de ter se convencido de que seria só uma questão de tempo. Antes, teve a sorte de encontrar uma maleta cheia de dinheiro. Soube como multiplicar o que achou. Mas acabou vendendo também o corpo. E o dinheiro não tinha gosto.

No fim só restou o nome. Rosa. Que era de pobre.

O jardineiro

Estava acabando, bastava depositar a última pá de terra seca sobre o corpo já completamente escondido e estaria finalizado. O sol havia esquentado seus miolos e ele quase não era capaz de pensar.

Morava ali sozinho e fazia questão de enterrar todos os corpos que apareciam no que ele chamava de “meu jardim”. Era um jardineiro, não um coveiro. Convencia-se da paz no seu trabalho. Dava alguma dignidade àqueles que ele sequer sabia o nome. Não os nomeava, nem enumerava. O anonimato talvez fosse a única paz verdadeira para aqueles homens, mulheres e uma (única) criança. Com essa fora especial. Deu banho. Encontrou uma roupa ainda usável no lixão ao lado e a vestiu. O garotinho estava lindo, um anjinho indo direto para o céu. Amém.

Esfregou a testa escorrendo de suor. Sorriu para o seu trabalho bem feito. Olhou todas as outras covas e era isso. Fazia o bem a quem precisava. Era isso.

Guardou a pá no galpão improvisado de caixas de papelão onde estava tudo de que ele necessitava para seu trabalho.

A noite caiu veloz enquanto ele dormia na poltrona velha e desgastada em frente à grande TV de tubo. Tudo herdado do que as pessoas não queriam mais.

O jornal começou com a notícia principal. Um filho de alguém havia sumido. Ele se assustou quando viu o rosto do rapaz que havia enterrado hoje. Era ele. Tinha um nome. E essa era toda a desgraça.

Álvaro

Processed with VSCO with b5 presetFechou a porta atrás de si e olhou o céu que já tomava aquela coloração meio laranja e meio rosa. Ouviu a mãe gritar alguma coisa, mas não prestou atenção. Desceu pela pequena rua, até chegar a avenida que atravessava três dos maiores bairros da pequena cidade. Álvaro desviava do olhar de todos. Tentou captar as sensações que poderia ter. Quis encontrar algo de profundo, mas não achou. Se permitiu então perceber, receber as percepções do mundo ao redor. O resto da luz do sol tocando a pele de seus braços magros. O vento seco do sertão mal balançando seu cabelo bem penteado, com o mesmo corte desde a primeira vez que sua mãe o fez sentar na cadeira do mesmo cabeleireiro que cortava seu cabelo até hoje. Não demorou muito para chegar até a ponte que dava acesso à saída da cidade. Tirou o celular do bolso e checou a mensagem que enviara para Erick, “posso lhe beijar uma última vez? Na ponte”. Antes de guardar o celular de volta no bolso da bermuda folgada sentiu o empurrão, não muito forte, mas o suficiente para desequilibrar um garoto magro que bateu a cabeça numa pedra assim que caiu e cujo corpo só seria encontrado três dias depois. No enterro falariam do bom garoto que ele era. Na rua falariam que morreu por ser viado. Erick não falaria nada.