Voyeur

Peguei a bandeja com meu almoço e me sentei na praça de alimentação. Eu gosto de ficar olhando as pessoas distraídas com qualquer coisa que elas julguem merecer a pouca atenção do horário de almoço. Em um shopping é possível ver muitas vidas. Tem quem trabalha nos quiosques sem ter nem uma cadeira para sentar, sempre trocando a perna onde apoiam o peso, sorrindo sempre, sem nunca descansar. Tem quem fique na porta das lojas, borrifando perfume sem acreditar que aquilo realmente atraia clientes, mas fazendo mesmo assim, já que é uma política estranha da loja. Tem quem esteja comprando, seja gastando rios de dinheiro ou as poucas economias, mas de qualquer forma satisfeitos por fazer parte da grande máquina da economia. Tem quem só esteja olhando, pensando sabe-se lá o que, ou até mesmo nada. Tem quem esteja namorando, quem esteja fugindo, quem esteja confuso.

            Eu estou almoçando. Falta pouco para entrar no trabalho, ainda tenho que pegar dois ônibus, então provavelmente eu chegarei atrasado, mas não estou me importando. Peguei meu sanduíche e meu refrigerante, sentei e agora estou olhando ao redor. Ao meu lado tem um homem olhando o celular enquanto segura ora um sanduíche, ora um refrigerante com a mão livre.

            Ele está bastante concentrado no que lê. E eu bastante concentrado nele, tanto que esqueço do meu próprio sanduíche e também do refrigerante. Ele começou a tossir muito, parece que está engasgado. Alguém olha enquanto passa, mas não faz nada. Eu também não faço nada. Olho ao redor e está todo mundo nas suas posições. Os funcionários dos quiosques, das lojas que jogam perfume em quem passa, os que estão namorando, os que estão gastando muito e os que estão gastando pouco, os que estão só olhando e eu. Todo mundo vendo e todo mundo igual. Ninguém sai um milímetro da sua posição. Eu fico atônito observando que ninguém faz nada enquanto o homem começa a morrer engasgado. Olho ora para o homem ora para todo mundo ao redor, estudando a situação.

            O homem cai por cima da mesa e se estende no chão na praça de alimentação, derrubando o sanduíche e o refrigerante. Ninguém fez nada. Eu fiquei olhando. Eu vi tudo. O homem estava morrendo e ninguém fez nada. Eu posso provar.

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Memento mori

            Já estava sentado diante do computador a pelo menos duas horas. Não deveria estar em casa. Mas naquele dia sacrificou um dia de trabalho na empresa para escrever. E não escreveu nada desde que sentou diante do computador.

            Algumas revistas estavam abertas em cima da mesa em entrevistas de escritores falando sobre o processo que os levava a escrever. Era uma pesquisa pessoal, uma tentativa de descobrir seu próprio processo, aquilo que o levaria a escrever e escrever e escrever. Mas a única coisa que descobriu é que cada um tinha uma visão muito particular do seu trabalho e que isso não o ajudaria muito. Vagueou por várias páginas da web buscando mais material e o resultado foi o mesmo: discordância. A única coisa semelhante em quase todo o material que encontrou era o fato de que os escritores viam a escrita como um trabalho. Às vezes quase uma manufatura, outras um processo industrial e extremamente capitalista. Tentou enxergar isso em si mesmo, então. Onde estava essa ideia muito clara do que era escrever? Digitou algumas linhas no documento em branco e logo apagou. Não era aquilo.

            Não podia mais usar o mote “escritor que não consegue escrever” para criar outra história. Da última vez que contou já tinha escrito sobre isso 37 vezes. Com diferenças sutis, mas no fundo era tudo a mesma coisa.

            Três horas em frente ao computador. Na parede onde a mesa estava encostada, várias fotos de escritores, alguns que ele admirava e outros nem tanto, mas achava que isso podia lhe mostrar um caminho, um lugar onde gostaria de chegar. Uma foto que dissesse “é isso, esta pessoa é isso”. Mas isso o que? Um escritor, uma romancista, uma poeta. No fundo o que é isso? Por que ele queria chegar nesse lugar? Morrer de fome esperando que alguém comprasse seus livros. Antes disso, morrer de fome esperando que alguém publicasse seus livros. Aceitar o rumo que a vida tomou seria mais fácil, mas não era o que ele queria. E por que ele queria outra coisa? O que ser escritor lhe traria de diferente? Pelas entrevistas e matérias que lera, era um trabalho tanto ou talvez até mais difícil do que o que ele já fazia. Queria trabalhar mais para receber menos ou talvez até nada? Ali na parede estava Hilda Hilst. Hilda que lutou quase toda sua vida por reconhecimento, que só lhe veio quando resolveu brincar com o mercado editorial e escrever pornografia com doses pesadas e tóxicas de alta literatura. Rimbaud que desistiu da literatura. Outros que alcançaram sucesso que não lhes trouxe nada mais além de pesadas crises existenciais, depressão e mais trabalho. Era isso que ele queria, de alguma forma. Queria estar na parede de alguém que estivesse se perguntando o que ele teria feito que o elevou a esse patamar.

            Quatro horas diante do computador. Sua cadeira cara que comprou com a desculpa de que mais conforto lhe ajudaria a escrever mais e melhor. E, no entanto, ali estava ele, ainda encarando as sombras fantasmas na página em branco na tela limpa das linhas que ele digitou várias vezes e as apagou instantes depois. Um anjo que é massacrado ao cair na terra por humanos ignorantes que não entendem nada diferente de sua própria natureza, que eles também não entendem. Uma garota que foge de criaturas indescritíveis (mesmo que ele as tenha descrito) enquanto tenta entender o que a levou até o destino de encarar a morte diariamente esperando pelo dia em que não conseguiria sobreviver. Nada disso pareceu a ele exatamente o que gostaria de escrever.

            Recostou-se na cadeira e colocou os pés para frente, espreguiçando-se. Fechou os olhos e deixou os sentidos lerem o ambiente ao redor. O ruído baixo do ar-condicionado de segunda mão. O cooler do computador bem velho que fazia mais barulho do que deveria. Crianças brincando em frente ao seu prédio. O vizinho de cima arrastando móveis. O frio lambendo seus braços. De repente, sentiu queimar.

            Abriu os olhos para ver que Toni Morrison e Amós Oz estavam prendendo seus braços à cadeira enquanto Camus apagava um cigarro na curva do seu pescoço. Levou alguns poucos segundos para entender o que estava acontecendo, mais pela sensação amarga da ponta do cigarro na pele do que por ver ali três grandes escritores. Um grito histérico veio de trás dele. Do canto do olho pode ver Haruki Murakami correndo, aparentemente com as mãos coladas no rosto e em círculos dentro do quarto que chamava de escritório. Gritava e corria como se estivesse em chamas. Viu também, correndo no sentido contrário, Margaret Atwood, mas em silêncio.

            Toni Morrison e Amós Oz o investigavam com uma curiosidade que lhe pareceu muito invasiva e cruel. Camus seguia acendendo e apagando cigarros no seu corpo. Viu que atrás dele, Rimbaud e Caio Fernando Abreu davam risinhos da situação. Apontando para cada marca que o cigarro de Camus deixava em sua pele. Preso na cadeira, Toni virou seu rosto para a direita, onde viu Mia Couto lendo um caderno de anotações ao lado de Drummond, que segurava uma caneta entre os dedos, de pernas cruzadas e costas um pouco curvadas.

            Toni virou seu rosto, então, para a esquerda, onde ele pode ver Valter Hugo Mãe e Chimamanda Ngozi Adichie, que pareciam estar esperando sua vez depois que Camus terminasse de marcá-lo. Parecia já ter acendido e apagado uma carteira de cigarros inteira por vários lugares de sua pele que ardia.

            Sentiu algo lhe riscar a nuca e no seu campo de visão Hilda Hilst apareceu, segurando um bisturi cego, percorrendo caminhos na sua cabeça e descendo pelos seus braços e pernas. Era sádico, apenas uma ameaça de corte e tétano. Era para se divertir. Percorreu seu peito. Com dificuldade cortou sua camisa e pressionou com um pouco mais de força seu mamilo direito, cortando a parte de baixo. Um fino fio de sangue escorreu e molhou um pouco sua calça branca. O sorriso de Hilda, as risadas de Rimbaud e Caio não deixavam dúvidas: todos estavam ali para se divertir com sua tortura.

            Toni e Amós continuavam olhando como dois cientistas fazendo uma dissecação. Era cirúrgico e esse olhar lhe doía mais que a brincadeira de Hilda. Murakami permanecia correndo feito louco na direção contrária a de Margaret.

            Estava ficando tonto. As queimaduras latejavam, o corte no mamilo direito latejava. Sua cabeça latejava. De olhos fechados. Foi quando um grito muito interior lhe veio subindo a garganta e fez todo o som ao seu redor silenciar.

            Tudo que estava sentindo parou.

            Sentiu-se quase livre e aliviado. Abriu os olhos para ver que estava sozinho no quarto e as fotos de todos aqueles escritores que estavam ali antes, ainda penduradas na parede.

            Olhou para o computador e viu apenas uma frase escrita: memento mori.

Terror noturno

            Respirava lentamente, mas o coração batia rápido. Os olhos também vasculhavam toda a extensão do beco rapidamente, de uma ponta a outra. Pelo menos havia saídas. Não estava encurralada. Mas talvez isso não adiantasse de muita coisa. Quando o som se aproximasse, parecido com um pigarro rouco atingindo as partes inexploradas de seu cérebro, seria tarde demais. Mas ela iria lutar. Um desses filhos da puta não irá me levar sem lutar, pensou tão rápido quanto o coração batia.

            Estava encostada no muro do beco ao lado do shopping e mesmo que ali fosse aberto o suficiente para ser vista, ainda era melhor do que seguir subindo e chegar até a grande avenida que cortava a cidade, ou descer e tentar se esconder nas áreas extremamente abertas da universidade. Haveria uma chance, ainda que pequena, de encontrar alguém lá, mas isso não era inteiramente bom. Pelo menos, não mais.

            Descansou as costas na parede e observou o céu. Naquela época do ano, antes do anoitecer, a tarde se enchia de tons de laranja e rosa, refletindo nas nuvens e deixando tudo com uma cor mais quente e quase envelhecida. Era bonito. Olhou tudo ao redor, registrando as nuances de cor, de luz, de textura. O mundo ainda parecia bonito se você quisesse vê-lo dessa forma. Mas tudo poderia mudar num estalar de dedos e mesmo que você quisesse ver a beleza em qualquer coisa, não poderia. Na verdade, mesmo que fizesse um esforço, numa tentativa de ser mais positiva a respeito de tudo que aconteceu no mundo nos últimos meses, ela não conseguiria manter isso por muito tempo. Logo aquela positividade pareceria insípida, sem sentido e ela começaria a olhar para as escalas de cores no céu, que tinha achado tão bonitas poucos segundos antes, e aquilo pareceria primeiro sem sentido, e em seguida tomaria um ar terrível. Era assim agora: entre pólos, oscilando de um lado para o outro rapidamente.

            Desde a noite do terror, ela lutava contra a vontade de se esconder, não que pretendesse escapar do sono, mas não iria desistir tão fácil. Pelo menos era o que ela gostava de acreditar. Ninguém tinha certeza ainda dos padrões dos saltadores, a única certeza é que eles viriam.

            Assustou-se quando um carro passou pela avenida logo acima se arrastando e fazendo um barulho de algo que merecia ser consertado. Era estranho ver pessoas dirigindo tão devagar. Alguns se recusavam a desistir de sua vida e se render ao medo, mas a maior parte delas escolheu se esconder ou correr. Ela estava no meio desse caminho. Esticou o pescoço para tentar ver bem na hora em que o carro passou por seu campo de visão e teve a impressão de que não havia ninguém por trás do volante.

            Olhou para o céu e calculou pouco menos de uma hora até o anoitecer. Não que estivesse mais segura durante o dia. Uma vez marcado, um saltador lhe encontraria onde quer que você estivesse, a qualquer hora do dia ou da noite. Mas a noite é sempre pior. A escuridão de nada ajuda. Eles não veem o mundo da mesma forma que nós. Eles seguem seus sonhos, era nisso que ela acreditava, mesmo que desde a noite do terror ela não tenha mais sonhado. Não importa. De alguma forma os sonhos estão lá e eles podem sentir. De alguma forma, eles lhe marcavam naquela primeira noite e seguiam seus sonhos, que você não tinha mais. Talvez eles os roubassem, se alimentassem disso, sugando tudo de você até não lhe restar mais nada a não ser você mesmo. E é aí que eles vêm correndo lhe buscar.

            No final das contas talvez devesse se render e esperar. Pelo que contavam, nada impediria um saltador de encontrá-la. Mas não. Se um desses filhos da puta queria lhe conceder o sono, teria que lutar por isso. Riu. Mais uma vez, no meio do caminho. Claro que ninguém sabia ao certo o que acontecia. Mas de qualquer forma, pensar em resistir e em se render dava a ela algo com que se ocupar.

            Algumas pessoas se juntavam e tentavam formar uma espécie de grupo de sobrevivência, mas para ela estar num lugar assim, junto de tantas pessoas, não era exatamente a melhor forma de escapar deles. Já estivera em um grupo assim, até que alguém fora atacado uma noite. Eles não deixam a presa escapar. Quando vêm lhe buscar, levam junto qualquer coisa ou qualquer um que esteja no caminho. Ela conseguiu escapar e decidiu estar sozinha a partir de então. Pelos seus cálculos, estar sozinha lhe dava mais chance de sobreviver.

            Lembrava-se muito nitidamente do que ocorreu na noite do terror. Era assim que chamavam: a noite do terror. Não se lembrava exatamente do terror. Esse era o ponto: nada tinha acontecido para ela, exceto o depois. É do depois que ela lembra. Mas a mãe havia lhe contado. Logo após adormecer, ela começou a se contorcer na cama, batendo nervosamente com o punho fechado na parede. O barulho dos pés da cama batendo no chão e um murmúrio parecido com um grito longínquo chamou a atenção de sua mãe. Quando ela chegou ao quarto, encontrou Elisa levantando levemente a parte superior do tronco enquanto parecia tentar sufocar um grito. Os olhos estavam terrivelmente abertos e a boca estava contorcida numa espécie de “O” mal rabiscado. Quando a mãe chamou seu nome, Elisa virou diagonalmente a cabeça em sua direção e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Foi quando os gritos começaram de verdade. Era profundo. Parecia vir de outro lugar, não da sua garganta. Ela ficou em pé na cama e, com os olhos e a boca ainda muito abertos, começou a esmurrar a parede. Sua mãe tentou contê-la, mas Elisa a empurrou para o canto do quarto e saiu correndo enquanto ainda gritava. Quando sua mãe conseguiu se levantar, encontrou-a parada no meio da sala ainda com lágrimas escorrendo dos olhos, extremamente pálida, com a boca se fechando devagar.

– O que aconteceu? – Elisa perguntou.

            Nada disso ela recorda. Lembra-se da sensação de terror, um vazio primordial que nunca tinha experimentado antes. Lembra-se das lágrimas frias escorrendo pelo rosto e um gosto ferroso de sangue na boca. Chorava sem ter vontade de chorar.

            Não havia um dia sequer que não tentasse se lembrar exatamente do que ocorreu naquela noite, mas não conseguia. Com o tempo começou a acreditar que o que sua mãe lhe contava estava distorcido pelas nuances da memória. Fazia bastante tempo. Lembra-se com um realismo tremendo de estar na sala, chorando, sentindo pavor. Essa sensação ela não esqueceria jamais. Era uma espécie de cola que agora grudava tudo na sua vida. Não havia uma forma sequer de escapar desse sentimento. Nunca tinha sido uma garota muito alegre, mas também nunca experimentou uma sensação de vazio, desamparo e medo tão substancial. Outra coisa que não conseguia esquecer por mais que tentasse era o olhar de reserva com que sua mãe passou a vê-la desde então. Era um misto de cuidado e alerta, com uma pontinha de medo lá no fundo. Até um simples espirro era capaz de sobressaltá-la ao ponto de levá-la às lágrimas.

            Desde aquele dia então alguma coisa, muito pequena, tinha mudado. Havia algo faltando, um espaço entre as coisas da vida, como se agora tudo fosse bem rígido, um grande bloco de ações, sentimentos e coisas. Faltava uma pausa para respirar profundamente, pensar, medir. Faltava gosto também. Era tudo automático, apático, opaco. Tinha parado de se dirigir à mãe, em parte por não ver mais necessidade, em parte por receio do que ela estava pensando, fazendo, imaginando. Foi quando percebeu que não sonhava mais.

            Poucos dias depois os relatos de outras pessoas que tinham passado pela noite do terror começaram a aparecer. Os jornais lidaram com isso sem muita importância. Episódios de terror noturno ocorrendo em várias pessoas da cidade, do estado, do país. Ainda assim era muito pouco para criar um alarde. Até que os desaparecimentos também começaram e, o pior de tudo, a descoberta das pessoas em sono.

                                                                      *

Acordou de repente sentindo medo. Por um momento pensou que tinha acontecido tudo de novo, mas era fácil perceber as diferenças. Sem lágrimas, sem a dor no maxilar, sem o gosto de sangue na boca. Só tinha pegado no sono. Ainda não era o sono.

            Endireitou-se na parede, tentando esticar as costas que doíam. Já era noite e ela ainda estava ali. A noite é sempre pior. Que se foda, pensou, vou sair daqui. Levantou e uma câimbra a fez torcer o tronco para o lado. Merda. Tinha passado muito tempo naquela posição. Partes do seu corpo estavam dormentes. Alongou-se por alguns minutos até perceber que seu corpo estaria pronto o suficiente para correr se fosse necessário.

            Subiu o beco lentamente tentando prestar atenção aos sons. Um cano quebrado meio metro acima do chão na parede pingava. Mas fora isso, era tudo silêncio. Nem vento havia. Chegou à calçada no fim do beco e viu uma pessoa parada do seu lado esquerdo, uns vinte metros distante. Jogou o cabelo sobre o rosto e começou a andar um pouco mais rápido. Passava agora pela entrada da universidade. A escultura em forma de tridente que ela nunca tinha entendido estava meio destruída. No lugar de três grandes pilares agora tinha apenas um e meio. As flores estavam mortas, a grama seca. Viu o anfiteatro que havia ali agora juntando sujeira. Fazia bastante tempo que a universidade tinha suspendido as aulas desde que a reitora foi encontrada em sua sala, em sono. Começou com um luto, mas continuou quando outros funcionários foram encontrados também em sono. Pensaram que a universidade talvez fosse um alvo do que estava acontecendo, mas o alvo eram eles, qualquer um. Onde quer que estivessem.

            Olhou para trás em busca do estranho que tinha visto, mas ele não estava mais lá. Talvez tenha corrido para se esconder. Algumas pessoas não gostavam mais de estar em grupos. As chances de um marcado ser atacado eram grandes demais, então preferiam a solidão, como ela. Continuou caminhando até chegar ao túnel do viaduto. Escuro, sem os recorrentes moradores de rua povoando o espaço, parecia ainda mais assustador. Parou por um momento para ouvir. Tinha sempre que parar para ouvir. Mas agora só o vento, que tinha recomeçado, fazia barulho. O resto era silêncio. Sem carros, sem pessoas, sem animais.

            Recostou-se e alongou o pescoço que ainda doía por ter dormido de mau jeito. Lembrava que ali, quando havia luz para ver, existia um grafite, dizendo que A humanidade dormirá. Era isso. Talvez um por um, todos no planeta entrassem em sono e o que sobraria depois? Uma grande rocha flutuando no espaço, agora a salvo do seu maior predador, dizimado por outro predador, incompreensível.

            Respirou fundo o ar com cheiro de maresia e continuou andando. Subiu a calçada, saiu do meio da rua e desacelerou. Queria prestar atenção. A cerca ao redor da universidade, rompida em alguns pontos, o asfalto cheio de buracos, o mormaço ainda subindo da rua. A cidade sempre tinha sido esse caos? Ela tinha impressão que sim, mas antes por outros motivos. Era linda, devia ser mesmo, mas para os turistas que a superpovoavam o ano inteiro, andando pela cidade com suas roupas de banho e bronzeados exagerados. Curtindo aquele clima de paraíso e não se importando com os horários, os ônibus, o trânsito, as paradas cheias, o calor infernal.

            Queria enxergar as coisas dessa forma, mas essa visão não se sustentava por muito tempo. Logo era arrebatada por aquela frieza sobrenatural e estava novamente no meio das coisas.

            Atravessou a passarela para o outro lado da avenida, saindo de frente para o centro do governo do estado na cidade. Ao lado havia o grande estádio, assustador, manchado pelas chuvas de verão, coberto pela grama nunca mais aparada. Segurou a mochila e olhou tudo ao seu redor. Foi quando ouviu.

            Mas antes ela sentiu o rosto empalidecer e gelar. A sensação de vazio se aprofundou, agora sentia quase um abismo no peito. E então veio o terror. Pior que naquela noite quando parou de sonhar. Não era apenas mais intenso, era quase palpável. O gosto ferroso na boca apareceu repentinamente e seus olhos se arregalaram.

            O som era obscuro, meio metálico. Um ronco de motor com problemas, ecoando na sua cabeça. Ela se abaixou, como se isso fosse adiantar de alguma coisa. Quando percebeu que não haveria chance de escapar ali começou a correr em direção ao grande estádio, esquecendo que não adiantaria se esconder, a coisa o encontraria.

            Atravessou por um buraco pequeno na cerca, se arrastando e sujando toda sua roupa já não muito limpa. Estava desesperada por estar tão visível. Mesmo que não adiantasse, talvez se sentisse melhor escondida.

            Talvez alguém tivesse tentado se esconder ali antes, porque havia um caminho claro a ser percorrido. Depois da cerca, o portão D que dava entrada para o campo também estava arrebentado. Depois, o caminho para a escada que levaria até uma das arquibancadas. Lá, a porta para um dos camarotes pendia em apenas uma dobradiça resistente.

            Posicionou-se embaixo de cadeiras sujas, onde uma velha mochila tinha sido deixada. Se alguém morreu ali, o corpo havia sido removido. Não havia sinal de uma morte sequer. Mas era assim que se morria hoje em dia, silenciosamente, de forma limpa, apenas um eterno repousar em sono.

            O ronco havia parado enquanto corria, mas logo voltou. Estava escuro e ela desejava poder enxergar alguma coisa. Que merda, deveria estar correndo e não parada ali esperando por um milagre que a salvasse.

            Viu a primeira pata escamosa reluzir numa luz que não existia. Parecia que estava vibrando. Será que a coisa não tinha boca? Será que o som vinha de suas patas? Logo ela viu as outras, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. Nove patas. Que porra era essa! Que atrocidade da natureza teria exatamente sete patas? Viu o conjunto absurdo das estacas se dobrarem e uma cabeça quadrada com muitos olhos vasculhou seu interior. O frio se intensificou, a sensação de vazio se aprofundou ainda mais e ela achou que seu coração pararia de bater de tanto terror. Sua boca se abriu sem um comando claro do cérebro e ela começou a gritar. Pontos específicos do seu corpo começaram a congelar. Nove pontos, exatamente. Os olhos se arregalaram e as mãos começaram a esmurrar tudo que havia ao seu redor. Não tinha força para tanto, mas espalhou as cadeiras que estavam por perto e quase ficou de pé. Sentia o corpo se elevar de alguma maneira e não conseguia pensar de forma clara em nada, apenas era capaz de perceber o que estava acontecendo.

            Uma claridade repentina a cegou, intensificando ainda mais o frio que sentia naqueles pontos exatos do corpo, gritou mais alto e com mais força, um pesadelo se delineou em sua mente e ela se entregou sem lutar, ao contrário do que tinha planejado fazer. O filho da puta a levou sem que ela sequer pudesse entender de fato o que estava acontecendo.

Por que não agora? – poesia e o desejo do sagrado

            Nos últimos três anos, tenho voltado meu interesse de pesquisas para a poesia brasileira contemporânea. Busco, então, incansavelmente, tanto na internet quanto em livrarias e sites de livrarias, livros de poesia e de crítica a essa poesia. Encontrar poetas que publicam nos últimos dez anos (e que surgiram nos últimos dez anos também, já que meu interesse está na geração de poetas da qual eu consigo me sentir parte) não é tão difícil. Mas encontrar crítica (e teoria) sobre esses poetas e sua poesia é praticamente impossível.

            Primeiro temos o problema da classificação temporal: onde acabou, exatamente, o modernismo? Onde começou o pós-modernismo? Até onde ele vai? O que ele é? O contemporâneo dura quanto tempo?

            Dessa forma, cada pesquisador e autor parece ter uma ideia levemente diferente de quando é o contemporâneo (um dos temas que pretendo me debruçar sobre nos próximos anos é justamente esse) e de quem faz parte dele. Assim, os poetas mais recentes, publicando na internet e nos selos editoriais voltados a descobrir novos nomes para a poesia brasileira, praticamente são ignorados. Por um lado, parece justificável: são muito recentes, é difícil olhar para o exato segundo que dura o presente. Parece ser preciso esperar os anos. Quando busco por crítica de poesia contemporânea, o mais recente que encontro são textos sobre Antonio Cícero, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Brito, sem dúvida nenhuma, grandes nomes da nossa poesia, mas que tem uma carreira que remonta há muito antes daquele período que me interessa: os anos 90 e como eles mudaram nossa percepção de sujeito, de outro, de espaço, de tempo, enfim.

            Sem dúvida todos esses poetas continuam em atividade até hoje. Mas, mesmo assim, não são muitos os estudos sobre eles. E aí vem o segundo problema: quem é contemporâneo? A maioria dos estudos foca em Hilda Hilst e Ferreira Gullar. A poesia só foi até aí? Onde está Alice de Sant’Anna? Angélica Freitas? Bruna Beber? Vozes atuais que reverberam preocupações e reflexões muito atuais a respeito do estado de coisas nesse espaço eterno de transição que é o início do século XXI?

            De certa forma, não é de espantar que os estudos literários se preocupem com “quem é mais importante”. O que eu quero dizer com isso, é que a academia dá preferência sempre à consolidação de um nome. O que é paradoxal, pois Hilda lutou a vida inteira para ter essa consolidação e só conseguiu quando passou a escrever seus romances pornográficos. Quem consolida uma obra é sempre relativo, no nosso século, então, isso é ainda mais complicado.

            É aí que está o ponto central do texto: a academia vê a poesia como um sagrado. E a crítica produzida nas universidades busca esse sagrado de forma desvairada. Ora, o sagrado exige consenso para ser cultuado e reconhecido. Dessa forma, os poetas atuais ainda estão muito “na nossa cara” para receber esse tratamento privilegiado. Precisamos sempre, parece, esperar os anos dizerem se aquilo ali “tem liga”.

            Não nego que essa minha busca e meu interesse pela poesia produzida nos últimos dez anos de alguma forma também carrega essa marca do desejo de um sagrado. Mas, não sei exatamente porque, ela se volta para esse período específico e não tem pretensão nenhuma de eternidade, como o cânone pressupõe. Ela aceita o passageiro, já que é tudo que somos atualmente: passagem. Vivemos nesse espaço-tempo que é um recorrente agora. O passado é longe demais, o futuro é quase impossível, pois estamos presos demais no agora. Como disse Adriana Calcanhotto na introdução de sua antologia incompleta da poesia contemporânea: estamos “de dentro do agora”.

            Essa busca por uma poesia sagrada, sacralizada, já canônica, deixa de fora das pesquisas sobre literatura uma série de poetas que são importantes e atuam socialmente e virtualmente na vida de seus leitores. Parece que a pesquisa em literatura precisa ser sempre diacrônica, é preciso esperar a história chegar e validar ou legar ao esquecimento as coisas. Mas vivemos nesse agora, de dentro desse agora. Não vale a pena olhar, agora, para quem fala agora?

Depois do baile verde

            A tarde caia e ele estava incomodado com o barulho das crianças do condomínio correndo. Sozinho e amargo. Que típico. A luz cortava a sala e se depositava bem acima de sua cabeça, alaranjada, com uns tons de rosa, que são as cores do pôr do sol no nordeste do país, meio lúgubre, o único momento em que parece ser outono logo abaixo da linha do Equador.

            O computador estava aberto em cima da mesa, ao lado de uma coca-cola pela metade e um salgado frito frio, alimentando as moscas. Ele olhava para a televisão desligada que, conectada ao sistema de som do Home-Theater fazia um zumbido constante e bastante audível, apesar de não ser alto.

            Era sábado de carnaval e ele escolhera permanecer em casa, sozinho. O gato estava jogado no canto do sofá, dormindo em cima de uma camisa esquecida que alguém havia jogado ali alguns dias atrás. O celular estava no silencioso, mas vibrava constantemente com mensagens deles ou dos vários grupos de amigos mostrando as fantasias coloridas e os sorrisos gigantes que usariam logo mais, quando a noite caísse. Iriam todos para a orla da praia, ouvir música e pular, com brilho nos olhos e por todo o corpo.

            Ele lembrou de um conto de Caio Fernando Abreu, onde dois homens são agredidos em um dia de carnaval, na orla de uma praia, por estarem flertando, ou se beijando, não lembrava. Sentiu medo por eles, os tempos não eram tão diferentes assim.

            Foi até a janela fumar um cigarro e viu as crianças que faziam tanto barulho, fantasiadas. Mulher-maravilha, capitão América e pantera negra. Soltou a fumaça e olhou para o cômodo que chamavam de escritório: poeira acumulada nos livros, a caixa de areia do gato suja, uma cama velha encostada em pé na parede e o sol fazendo desenhos quentes em todo lugar. Olhou para fora da janela e viu o traçado da luz recortar as folhas das árvores no terreno vizinho. Era bonito e solitário contemplar as coisas. Olhar era muito sozinho. Não dá para fazer alguém ver alguma coisa. Cada um vê da sua forma.

            As crianças deixaram muito lixo do lado de fora do prédio. O gato se aproximou exigindo comida. Ele o segurou no braço e o colocou na janela, onde ficou olhando os pássaros do fim do dia.

            Voltou para a sala e sentou-se no sofá quebrado. Olhou todos os cantos ao seu redor, estudou a luz para passar o tempo enquanto a noite caia e o escuro tomava conta de tudo. Não iria acender a luz. Esperaria. Esperaria o baile acabar.

Afinal de contas, precisamos mesmo definir o que é literatura?

Todo início de pesquisa literária esbarra na secular e difícil questão: o que é literatura? Diante dela, podemos tomar duas atitudes: gastar tempo e páginas e mais páginas, além de horas de leitura, tentando respondê-la; ou deixá-la de lado e assumir que literatura é aquilo que está nos livros, nas livrarias e nas aulas na escola e na universidade. Essa segunda posição baseia-se no senso comum sobre a literatura; é mais fácil e mais rápida. A primeira foca na visão da teoria literária, que é sempre relativista.

            Primeiro de tudo, quero deixar claro que considero como “teoria literária” o discurso sobre o discurso da literatura; ou seja, aquilo que dizemos ou pretendemos dizer sobre os textos que falam da literatura (seja crítica literária ou história literária). Essa visão se aproxima muito da definição de teoria literária de Antoine Compagnon, que vê na teoria uma guinada sempre relativista, irônica, derivativa dos discursos sobre a literatura.

            Isto posto, vamos às eternas questões: para quem é importante definir o que é literatura? Vejam, parece, inicialmente, que esta questão só diz respeito àquelas pessoas que constroem uma carreira acadêmica em cima do material literário. Afinal de contas, para um leitor, saber exatamente o que é literatura talvez não seja tão importante. Mas eu vejo de outra forma. Como um leitor (deixando de lado minha formação e meu trabalho com literatura) acho relevante entender o que é esse objeto que consumo e que me dá tanto prazer. Isso porque não quero doar meu tempo a qualquer coisa escrita e impressa num livro, pois dessa forma consigo guiar minha experiência para aquilo que tenho interesse. Óbvio que nem todo mundo pensa assim e realmente acredito que essa é uma visão muito elitista da literatura (mas isso é material para outro texto).

            Seguindo adiante: por que é importante definir o que é literatura? A princípio, parece que para nada. Afinal de contas isso não muda realmente e substancialmente o quadro da produção e da recepção da literatura. Seria uma questão mais voltada, de verdade, aos acadêmicos. Mas tomemos como base uma das últimas grandes vertentes de pensamento que se debruçaram sobre essa questão: o estruturalismo (não vou tratar aqui da teoria da recepção nem dos estudos culturais, pois meus estudos sobre essas teorias são muito básicos e não me sinto apto a falar sobre eles). O estruturalismo surgiu na França, por volta dos anos 1960-1970, ganhando força com as manifestações de 68 e encontrando um campo fértil para se espalhar. O estruturalismo injetou na sociedade e na academia a linguística e a psicanálise, olhando para quase todas as vertentes do conhecimento humano com essa nova visão. Naquele momento, definir o que era literatura ajudou o estruturalismo a moldar um conhecimento base aplicável que deu força aos movimentos sociais na França. Dessa forma, nesse momento (ou em momentos como esse), definir, classificar, teorizar sobre a literatura tem uma aplicabilidade. Mas depois dos anos 80, com o avanço de outras ciências (sociais, principalmente), o papel dos estudos literários diminuiu e a importância de se definir “o que é literatura?” foi deixada de lado. Ainda na esteira de pensamento de Compagnon, o destino da teoria é institucionalizar-se, ser transformada em pedagogia e, consequentemente, em senso comum, perdendo seu caráter relativista. Mas as questões permanecem. Por que ainda perguntamos o que é Literatura?

            A sociedade tem mudado muito mais rápido no último século. Não temos mais grandes períodos de pensamento livre e disseminação de conhecimento, porque a contracorrente da ignorância se alastra pela internet (vejamos o caso do movimento anti-vacina ou da terra plana, por exemplo).

            Dessa forma, nenhum pressuposto permanece por mais de duas décadas no senso comum. Logo ele é invalidado pela corrente da ignorância. Então continuamos sentindo necessidade de teorizar sobre questões como a que coloquei aqui.

            Assim, a necessidade é retornada, para construir novas bases de luta contra a ignorância generalizada. Precisamos constantemente nos perguntar “o que é literatura agora?” porque aquilo que considerávamos como literatura vinte anos atrás já foi desacreditado pela turba furiosa do relativismo vazio. Estamos sempre precisando nos questionar, porque nenhuma resposta resiste à facilidade com que a desinformação é produzida, afinal de contas ela não prescinde de pesquisa e sequer de pensamento (vide a pós-verdade).

            Neste momento, precisamos nos colocar a questão para nos resguardar da maré de ignorância que temos que lidar. Estamos mais uma vez em um momento, porém construído em condições diferentes talvez, em que precisamos das questões mais do que das respostas.

            A definição do que é literatura supera uma mera necessidade teórica e acadêmica. Pode parecer irrisório, mas qualquer tentativa de construir barreiras para parar o vazamento descontrolado da ignorância é necessário. Precisamos nos perguntar o que é literatura agora. Ela já foi muitas coisas e será muitas outras. Mas talvez a necessidade de defini-la nunca termine, pois há muito tempo não somos os mesmos de ontem e os monstros que precisamos derrotar metamorfoseiam-se diariamente em novas ameaças.

P.S.: talvez esse texto traga uma opinião divergente da sua. Que tal discutirmos civilizadamente? Deixe seu comentário e vamos construir conhecimento juntos.

A última sessão

Aninha trabalhava na bilheteria do luxuoso cinema há apenas três meses, mas de longe aquele era o melhor período de tempo que havia vivido desde que se entendia por gente. Olhava pessoas, falava com pessoas e podia viver as pessoas, era como ela pensava. Muito diferente de como era acordar às quatro da manhã para lavrar o chão no sítio da família. Trabalhando no cinema, ela ia dormir às quatro da manhã. E para ela isso era tudo.

            A cidade pequena vivia basicamente de agricultura, então quando contou aos pais que não queria mais trabalhar na terra, aquilo foi uma punhalada quase fatal. O pai ainda a tratava com muita reserva e a mãe só voltou a sorrir para ela faz duas semanas. Mas era o que Aninha queria. Ver os jovens, como ela, se empanturrando de pipoca e Coca-Cola. Não sentia vontade de estar no lugar deles: do outro lado do balcão. Achava que se podia aproveitar todo aquele jorro de energia vital e ainda conseguir dinheiro com isso, era isso que devia fazer. Então, não: não invejava. Estava onde devia estar.

            Às vezes saia correndo da bilheteria até a lanchonete para vender a pipoca, encher os copos com refrigerante e separar os chocolates. Depois voltava correndo até a bilheteria. Fazia isso porque gostava. O patrão não reclamava. Era como ter dois funcionários pelo preço de um. E mesmo que os clientes reclamassem que às vezes tinham que esperar alguns minutos enquanto Aninha estava atendendo em outro lugar, ele não se importava. Era lucro, de alguma forma. E a reclamação de um ou outro cliente não faria mal. Aninha era boa no que fazia. E nem ocupava o lugar que tinha direito na última sessão noturna, cortesia do trabalho. Nem comia a pipoca e nem tomava a Coca-Cola. É, não tinha do que reclamar.

            Quando o último cliente comprava o último saco de pipoca, Aninha começava a varrer a entrada do cinema. A rua já estava deserta, ela era a única por ali. Todos os outros ou estavam em casa dormindo se preparando para o trabalho no outro dia, ou estavam no cinema, ou estavam nas ruas escuras se agarrando. Ela ficava feliz de estar ali.

            Apesar de a cidade ser pequena, nenhum dos frequentadores do cinema a conhecia. Estudara com alguns, mas seus pais preferiram, depois do primeiro ano escolar, mantê-la na pequena escola rural junto com os filhos dos outros agricultores. Então nem se lembrava de ninguém. Talvez um nome. Mas um nome é só um nome se não vem acompanhado de um rosto ou uma história.

            Aninha fazia o mesmo horário sempre, exceto no sétimo dia corrido de trabalho, quando tinha folga. Nesses dias ficava em casa, ajudava a mãe com algumas tarefas domésticas, dava dinheiro ao pai para comprar algo mais além do que aquilo que a terra era capaz de produzir. Mas em geral, ficava na cama, ouvindo o barulho dos irmãos, sentindo o cheiro da sopa ou do queijo fresco feitos pela mãe. Não ouvia música. Não lia livros. Nem saia de casa para ir ao cinema ou à cidade. Apenas esperava que aquele dia acabasse e ela pudesse voltar a trabalhar no dia seguinte.

            Entrava no trabalho sempre às quatro da tarde, a tempo suficiente para vender os bilhetes e os lanches para a sessão das cinco horas. Varria a entrada, olhava o sol se pondo, sentia o resto do calor indo embora no meio da cidade e o frio chegar cortante.

            Recebia a todos sempre com um sorriso e mesmo que ficasse muito atarefada indo de um balcão para outro, não se pode negar que Aninha gostava daquele trabalho.

            Passara anos ali a ponto de ser conhecida como a mulher do cinema. Já tinha quase trinta anos e nunca tivera um namorado ou vivera qualquer outra coisa que não seu trabalho. Estava satisfeita e era tudo de que precisava. Todos os seus irmãos já tinham saído de casa e agora ela morava sozinha com os pais, já velhos, vivendo apenas do dinheiro que Aninha ganhava no trabalho. Pararam de reclamar alguns anos atrás, quando perceberam que não poderiam viver do sítio para sempre, afinal de contas estavam velhos e os outros filhos tinham ido embora.

            Só ela ficou. Como era também só ela ficava depois da última sessão para limpar, fechar e aprontar tudo para o rapaz que cuidava do cinema nas primeiras sessões do dia.

            O cinema já não tinha mais a mesma clientela. A televisão roubou grande parte dos jovens enamorados que pagavam uma mixaria para poderem namorar no escuro sem prestar atenção no filme. Numa cidade pequena como aquela, um negócio como um cinema não se sustentaria mais por muito tempo se alguma coisa não mudasse. E não mudou.

            O proprietário reuniu a pequena para anunciar que infelizmente fecharia as portas. Para Aninha essa notícia era péssima. Na verdade, era mais que isso. Dedicara sua vida inteira àquele trabalho e agora não teria nada mais. Os pais dependiam dela e ela dependia daquele cinema. O dono marcou a última sessão para dali a três dias. Então tudo acabaria.

            A notícia avassalou a cidade. A prefeitura não se importou. Saudosistas se juntavam na calçada para falar como era bom aquele tempo em que iam ao cinema comer pipoca com Coca-Cola e se apalpar por baixo dos jeans apertados sem que ninguém visse ou fingisse que não via. Mas no dia em que tudo acabaria, a notícia já era velha e ninguém de fato se importou. A não ser Aninha.

            Para a última sessão fez o cabelo e as unhas, usou uma maquiagem discreta, estava com o uniforme impecável. De alguma forma, queria dar a impressão (para ela mesma) que nada mudaria. Então sorriu bastante para todos os dez clientes que compraram os ingressos. Vendeu apenas uma pipoca e um refrigerante e nenhum chocolate.

            Quando acabou ela limpou tudo, conferiu o dinheiro no caixa, deixou na sala da administração junto com o uniforme e o crachá e saiu andando pela rua de cabeça baixa. Como sempre não havia ninguém. Aninha olhou para cima e viu a grande lua que iluminava as ruas escuras da cidade. Decidiu pegar um atalho que encurtava a parte do caminho que tinha que percorrer dentro da cidade e que a levava até a estrada de barro que ligava a cidade à zona rural.

            Ali Aninha desapareceu.

            Os pais foram, no outro dia, até a casa do dono do finado cinema pedir por informações dizendo que a filha nunca chegou em casa. O dono falou que Aninha saiu do prédio logo depois de fecharem e pareceu fazer o caminho normal para casa, mas que ninguém a havia acompanhado, como sempre.

            A polícia procurou por uma semana. Aninha foi notícia na cidade por quatro dias e depois disso passou a ser conhecida apenas como aquela moça do cinema que desapareceu e ninguém nunca mais achou.

Perto demais do sol

O clima mudou. Sentado na calçada do prédio, olhando as árvores do terreno baldio além do muro, sentiu aquele cheiro pouco familiar de chuva. Existem pessoas que nascem para o sol e no sol. Ele era uma dessas pessoas. Lá, numa cidade pequena e longe, viveu sua vida toda no sol. Às vezes chovia, mas era muito raro. Na maioria do tempo o chão fervilhava visivelmente. A cidade do sol, podia chamar assim. Mas qualquer cidade naquele estado parecia perto demais do sol.

Lembrou de quando era pequeno, num sítio de amigos de amigos de amigos de seus pais. Era uma festa, parece. Um casamento. Sem querer, esbarrou na mesa dos pratos e eles caíram se quebrando. Saiu correndo e os dois amigos foram atrás. Entraram na plantação alta de milho com o medo no encalço. Entraram bastante na plantação e depois de mais de meia hora, ainda sentindo o medo na nuca, sugeriu “vamos nos perder”.

Os olhos dos amigos brilharam com a aventura descoberta. Entraram mais no meio do milho, se coçando, rodando, tentando intencionalmente perder a direção da casa grande. Riam muito e se coçavam muito também. As peles já estavam bastante vermelhas do sol e da coceira da palha do milho. No sol. O milho não era dourado como nas histórias. Tinha uma cor morta e seca de algo que devia ser outra coisa. O sol era forte demais e qualquer coisa que passasse tanto tempo desprotegida na frescura de uma sombra queimava.

Por mais que tentassem eles não conseguiam se perder então desistiram e se sentaram no meio da plantação esturricando ao sol. Mexendo nas palhas secas e caídas e no estrume um dos amigos encontrou uma faca meio enferrujada. Ficou riscando o chão enquanto conversavam coisas de meninos no interior. O outro se levantou, desceu a bermuda surrada e começou a mijar no milho, “pra regar”, riram.

“Vocês já viram sangue?” disse o que estava com a faca na mão. Ninguém tinha visto, mesmo que os joelhos atestassem o contrário. Não sangue de verdade. Os dois amigos riram. O que tinha mijado no milho o segurou, imobilizando os braços e a cabeça. O outro com a faca se aproximou. Ambos riam enquanto ele gritava com o medo já descendo e subindo por sua garganta. O outro amigo aproximou a faca do seu ombro e rasgou sua camisa. Perto demais, ele pode olhar bem fundo nos olhos do menino e viu prazer. Foi ali que entendeu a maldade pura, apenas por maldade. Não era curiosidade. Não era inocência. Era maldade por prazer; prazer em ver sangue, em causar dor.

Depois cortou sua camisa e enfiou a faca em sua carne macia de menino. O sangue começou a escorrer imediatamente. Depois desceu, fazendo um risco por todo seu braço. Ele gritava de dor enquanto os amigos riam. Ele desviou o olhar do seu algoz e viu o sangue sob o sol. Era de um vermelho de coisa que era para ser o que era. Estavam longe o suficiente para que ninguém ouvisse seus gritos ou a risada dos outros meninos. Eram cúmplices, comparsas. Parecia que tinham imaginado uma coisa assim por muito tempo. Mesmo que muito tempo para uma criança de dez anos fosse algo difícil de imaginar.

Finalmente o soltaram e ele disparou exalando o medo junto com o cheiro de sangue que sujou as folhas do milho. Passou por toda a festa e ninguém o viu. Estavam ocupados com a noiva fazendo um discurso.

Rodou por aquilo que lhe pareceu uma eternidade entre as mesas até que alguém notou o sangue pingando do seu braço. Finalmente encontrou os pais e demorou uns dois segundos até que sua mãe percebesse o que estava acontecendo. Ele notou que os amigos já estavam ali, sentados, e se surpreendeu com a cara de surpresa deles. Aos gritos da mãe exigindo saber o que acontecera enquanto o levava para o carro ele só disse que havia se cortado quando derrubou os pratos. A mãe não acreditou, ele tinha certeza. Mas a urgência era muito grande para duvidar de uma criança sangrando.

A chuva começou a cair e ele passou os dedos pela cicatriz grande que tinha no ombro e descia até seu braço. Em dias de chuva, ela doía. Era assim que ele sabia que ia chover: a cicatriz doía.

Talvez Clarice…

Talvez Clarice tivesse uma cadeira no quarto, que acomodasse confortavelmente seu corpo e de onde pudesse olhar o fim da tarde pela pequena janela de seu quarto de dormir. Talvez acomodasse seu queixo suavemente nas costas da mão esquerda, enquanto segurava o cigarro com a mão direita que talvez tremesse levemente, o que poderia sugerir toda uma série de questões metafísicas pela suavidade com que cumpria esse gesto, mas que talvez, na verdade, fosse só um grande suspiro de cansaço encenado com todo o corpo. A tarde morrendo e Clarice, talvez, orando àquele Deus que ela tanto buscou nas palavras, enquanto olhava desconfiada para sua máquina de escrever.

Talvez ela pensasse em algo que queria escrever. Ou talvez, suspirando, apenas esperasse pelo fim de mais um dia, suas costas muito retas segurando um peso inominável como Deus. Talvez Clarice pensasse demais em Deus. Talvez segurasse o braço envernizado na cadeira, ou talvez suas mãos estivessem em outra posição que sugerisse uma profundidade emocional que ela se repreendesse por não conseguir esconder.

Talvez passasse muito tempo ali. Ou talvez se levantasse e seguisse lentamente até a cozinha, sentindo-se bastante cansada como disse que estava, com suas sobrancelhas sugerindo raiva, mas seus movimentos sugerindo tristeza.

Talvez estivesse sozinha depois de muito pedir por isso. Fazer com que o mundo externo entrasse em compasso com o mundo interno.

Ou talvez não. Talvez estivesse atormentada demais com uma população mundial de baratas, ou de ovos que não são ovos, mas são. Talvez Clarice nunca conseguisse se sentir sozinha. E se arrependesse bastante por matar muitos peixes metafóricos. Talvez sua solidão fosse de outra espécie. A solidão de quem não fala a língua dos outros. Um falar e falar que jamais seria entender. Talvez sua solidão esbarrasse na sua máquina de escrever e ela decidisse, mesmo que se arrependesse depois, que era melhor falar como ela falava, ou seja, escrevendo, porque falar como os outros falavam não era o que ela queria.

Não que ela estivesse buscando por uma voz interior. Talvez Clarice soubesse muito bem onde estava essa voz, que talvez fosse deus, ou uma barata ou um ovo. Talvez ela não quisesse falar com essa voz, mesmo que depois quisesse e fosse esse querer não querendo que a deixasse triste.

Talvez Clarice passasse por um espelho e verificasse se ainda era mulher e humana, ou se já teria se dissolvido numa massa de qualquer coisa que seria aquilo que o resto do mundo teria dela, por meio do que escrevesse, que ela queria e não queria. Talvez Clarice quisesse ser outra mulher ou até mesmo outra coisa, como um ovo.

Talvez tivesse seus pensamentos interrompidos por tiros bem no momento em que desejaria ser a menor mulher do mundo, mas não em tamanho e sim em expansão. Desejaria, antes daquele tiro, ser uma mulher que não ocupasse nada mais além do espaço que era seu, que talvez fosse deus.

Talvez Clarice tivesse uma sacada ou uma varanda com uma cadeira acolchoada e uma mesinha onde depositar uma bebida bem gelada para escapar do calor do Rio; não sei, não quero pesquisar. Talvez andando lentamente pela casa, com um vestido bem cortado e de tom sóbrio, os cabelos bem arrumados e o rosto com pouca maquiagem, ela chegasse até lá. Talvez virasse o corpo, como imaginando como seria cair. O que sentiria antes de atingir o chão, se seria como flutuar por um instante antes do horror da queda e do baque dos seus ossos se quebrando.

Talvez ela olhasse ao redor, em busca do que pudesse enxergar. Talvez quisesse sentir alguma felicidade ali, uma felicidade sorrateira que invadiria as portas da sua alma, espírito, etc., e se colocaria em algum lugar escondido de seu corpo, clandestina.

Na tarde já morrendo ela olharia para aquela terra que era sua, mas não era. Desterrada, procuraria em todos os pequenos detalhes uma espécie de reconhecimento, um sentimento de lar. Talvez ela tentasse estampar no rosto um sorriso ambíguo, Mona Lisa imigrante, querendo que quem passasse lá embaixo olhasse para cima e tivesse sua vida completamente alterada por algo que ela imaginaria ser seu sorriso, mas que na verdade, talvez, fosse uma nuvem em formato de um cachorrinho.

Talvez voltasse à cozinha e passasse um café enquanto o cheiro amargo se misturasse com uma vontade de ir ao cinema ou de ler um livro, Hermann Hesse talvez. Mas na verdade iria pegar uma xícara e voltar ao seu quarto, sentar na cadeira virada para a janela e ver o resto da luz sumir, sem se importar com o tiro, ou com o que pudesse escrever porque a voz dela, a voz que ela já havia encontrado dentro de si e que era deus, talvez fosse o suficiente para aquele dia. E ela não quisesse passar por mais um dia, talvez pensasse isso olhando para a mão queimada. Talvez não quisesse mais um dia, mas era o que tinha e talvez fosse aceitar a angustiante vontade do tempo, que lhe daria, talvez, justamente aquilo que ela não queria: mais um dia.

inimigos imaginários

O anjo ferido
Hugo Simberg
1903

Imagine a cena. Uma esquina, sol alto, depois do meio-dia. Tudo estático, mas parece que o som do baque quando o pequeno corpo caiu e quebrou a asa ainda está no ar. Se você olhar na altura do horizonte poderá ver alguns dos rostos que assomaram rapidamente ao ribombar de algo que pareceu um trovão. E aí você verá o ódio, fervilhando nas máscaras cotidianas, quase insustentável de tão quente. O ódio direcionado àquela criatura luminosa, nua, pequena, com uma asa e uma perna quebradas, mergulhada no próprio sangue muito humano.

E se aproximando uma arma e um fim.