Por que não agora? – poesia e o desejo do sagrado

            Nos últimos três anos, tenho voltado meu interesse de pesquisas para a poesia brasileira contemporânea. Busco, então, incansavelmente, tanto na internet quanto em livrarias e sites de livrarias, livros de poesia e de crítica a essa poesia. Encontrar poetas que publicam nos últimos dez anos (e que surgiram nos últimos dez anos também, já que meu interesse está na geração de poetas da qual eu consigo me sentir parte) não é tão difícil. Mas encontrar crítica (e teoria) sobre esses poetas e sua poesia é praticamente impossível.

            Primeiro temos o problema da classificação temporal: onde acabou, exatamente, o modernismo? Onde começou o pós-modernismo? Até onde ele vai? O que ele é? O contemporâneo dura quanto tempo?

            Dessa forma, cada pesquisador e autor parece ter uma ideia levemente diferente de quando é o contemporâneo (um dos temas que pretendo me debruçar sobre nos próximos anos é justamente esse) e de quem faz parte dele. Assim, os poetas mais recentes, publicando na internet e nos selos editoriais voltados a descobrir novos nomes para a poesia brasileira, praticamente são ignorados. Por um lado, parece justificável: são muito recentes, é difícil olhar para o exato segundo que dura o presente. Parece ser preciso esperar os anos. Quando busco por crítica de poesia contemporânea, o mais recente que encontro são textos sobre Antonio Cícero, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Brito, sem dúvida nenhuma, grandes nomes da nossa poesia, mas que tem uma carreira que remonta há muito antes daquele período que me interessa: os anos 90 e como eles mudaram nossa percepção de sujeito, de outro, de espaço, de tempo, enfim.

            Sem dúvida todos esses poetas continuam em atividade até hoje. Mas, mesmo assim, não são muitos os estudos sobre eles. E aí vem o segundo problema: quem é contemporâneo? A maioria dos estudos foca em Hilda Hilst e Ferreira Gullar. A poesia só foi até aí? Onde está Alice de Sant’Anna? Angélica Freitas? Bruna Beber? Vozes atuais que reverberam preocupações e reflexões muito atuais a respeito do estado de coisas nesse espaço eterno de transição que é o início do século XXI?

            De certa forma, não é de espantar que os estudos literários se preocupem com “quem é mais importante”. O que eu quero dizer com isso, é que a academia dá preferência sempre à consolidação de um nome. O que é paradoxal, pois Hilda lutou a vida inteira para ter essa consolidação e só conseguiu quando passou a escrever seus romances pornográficos. Quem consolida uma obra é sempre relativo, no nosso século, então, isso é ainda mais complicado.

            É aí que está o ponto central do texto: a academia vê a poesia como um sagrado. E a crítica produzida nas universidades busca esse sagrado de forma desvairada. Ora, o sagrado exige consenso para ser cultuado e reconhecido. Dessa forma, os poetas atuais ainda estão muito “na nossa cara” para receber esse tratamento privilegiado. Precisamos sempre, parece, esperar os anos dizerem se aquilo ali “tem liga”.

            Não nego que essa minha busca e meu interesse pela poesia produzida nos últimos dez anos de alguma forma também carrega essa marca do desejo de um sagrado. Mas, não sei exatamente porque, ela se volta para esse período específico e não tem pretensão nenhuma de eternidade, como o cânone pressupõe. Ela aceita o passageiro, já que é tudo que somos atualmente: passagem. Vivemos nesse espaço-tempo que é um recorrente agora. O passado é longe demais, o futuro é quase impossível, pois estamos presos demais no agora. Como disse Adriana Calcanhotto na introdução de sua antologia incompleta da poesia contemporânea: estamos “de dentro do agora”.

            Essa busca por uma poesia sagrada, sacralizada, já canônica, deixa de fora das pesquisas sobre literatura uma série de poetas que são importantes e atuam socialmente e virtualmente na vida de seus leitores. Parece que a pesquisa em literatura precisa ser sempre diacrônica, é preciso esperar a história chegar e validar ou legar ao esquecimento as coisas. Mas vivemos nesse agora, de dentro desse agora. Não vale a pena olhar, agora, para quem fala agora?

Anúncios