Paisagens humanas de meu país

Estou descobrindo a poesia de Nâzim Hikmet, principal poeta turco do modernismo, e estou encantado em como ele consegue, apenas com o recurso do olhar, desvendar toda a intrincada trama por trás da mais simples das situações.

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Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

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É muito comum ouvir dizer que Saramago é difícil de ler. E é mesmo. Uma prosa tão límpida, tão fluida e tão certeira, somada a um enredo tão chocante quanto o de “Ensaio sobre a cegueira” não poderia mesmo ser fácil. Mas Saramago vale a pena.

 

O que faz de nós humanos? Parece ser essa a pergunta que Saramago quer investigar. Digo investigar, porque mesmo sendo um romance (e sendo um romance capaz de tal investigação, apesar de não ser comum) o livro é, mesmo, um ensaio. Uma hipótese colocada em reflexão, relação, eu chegaria a dizer até mesmo em “crise”.

 

Um surto de cegueira repentina inicia sem parecer haver uma explicação. Mas essa cegueira é diferente. No lugar de ver tudo escuro, os cegos enxergam tudo branco, um mar de leite vasto, terrível e inumano, sendo a doença apelidada de “mal branco”.

 

A “doença” começa a se espalhar rápido, contagiando pessoas que tiveram alguma espécie de contato e deixando livre, abençoada ou não, apenas a mulher do oftalmologista que atendeu o primeiro cego horas depois de ter cegado.

 

O governo se desespera e isola em quarentena todos aqueles que já estão cegos ou que tiveram contato com algum deles. O exército é responsável pela logística, mas os desafortunados estão por conta própria, tendo que lidar sozinhos com questões de organização, higiene, alimentação e serviços funerários.

 

É a partir daí que Saramago parece exercer a visão de um ensaísta. Ele vai experimentando, criando situações em que investiga as possibilidades, deixando isso transparecer por vezes até na narrativa. E a vida dos miseráveis chega até o ponto extremo, tendo que lidar com o que há de mais profundo e escondido na condição humana, revelando os nossos piores lados, mas também os melhores.

 

O livro parece seguir uma espiral de desgraça, que se concentra e se intensifica, à medida em que as pessoas começam a se sentir cada vez menos pessoas e mais animais. Alguns comportamentos, inclusive, são exposto como o mais próximo do animalesco possível, fazendo coisas simples como defecar e tomar banho parecerem a mais complicada tarefa a se realizar na vida.

 

A sociedade colapsa, a estrutura política se estilhaça, a moral some quase completamente daquele país sem nome (pois pode ser qualquer um) na vida daquelas pessoas sem nome (pois são quase cobaias).

 

Saramago é cruel, mas com um propósito. Ele não teve medo de relativizar as certezas que nos fazem humanos. Não teve medo de expor o quão frágil é nossa certeza na nossa superioridade como espécie, como raça, como profissional, como familiar. Saramago nos expôs em nossa fragilidade, que é achar que somos superiores por sermos humanos.

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[Resenha] O chamado do cuco de Robert Galbraith

Um bom livro policial cai bem de vez em quando não é? Todo o suspense, as reviravoltas parecem encaixar bem com o gênero romanesco. Poucos, entretanto, conseguem se encaixar como clássicos dentro desse gênero o que torna difícil definir o que é um bom romance policial (aliás, qual a necessidade disso mesmo?)

 

Há bastante tempo tenho “O chamado do cuco” está guardado; comprei-o sabendo que foi escrito pela J. K. Rowling, escritora admirável. Mas nunca estava no humor correto para a história. Então fui deixando para lá. Tentei ler uma vez, mas antes da metade desisti por não sentir empolgação nenhuma. As cenas se arrastavam em um desenrolar aparentemente sem sentido.

 

Semana passada retomei e a sensação foi a mesma. Uma clássica história de detetive, com um personagem principal peculiar e um assistente acidental que se mostra mais útil por não entender nada do universo detetivesco. Quase uma fórmula, não é mesmo? Os clássicos livros de detetive seguem essa mesma estrutura e são ótimos. Por que, então, esse não estava me agradando?

 

O livro se arrasta por mais da metade. Mas eu entendi. Os personagens estavam sendo explorados, mas eles eram tão superficiais e sem graça que não valiam a pena. Talvez fosse uma tentativa de criar empatia do leitor para com os personagens, mas, comigo, não funcionou. Cormoram Strike, o detetive, tem uma história bem verossímil, mas desinteressante para mim. Como Sherlock Holmes, Strike arrasta suas suspeitas e descobertas até o grande e definitivo final, fazendo um livro de quase 500 páginas girar no entorno de quase nada. Nisso, os romances policiais suecos dão um show, com suas várias histórias se desenvolvendo ao mesmo tempo, prendendo o leitor a cada página.

 

Entendi que isso pode ter sido o estilo escolhido por Rowling para seu pseudônimo. O livro vale a pena, se você tem paciência. Como ela fez com “Morte súbita”, um dos melhores personagens é justamente aquele que morreu, ao redor de quem a história gira.

 

Nada de impressionante no livro, mas diverte e, no fim, talvez seja o que basta, não é? Porém, não fiquei empolgado em ler os outros dois livros da trilogia do detetive Strike. Por aqui já está tudo muito bom.

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“É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira” organizada por Adriana Calcanhotto

Acredito que a primeira coisa a discutir nesta resenha é porquê chamar Adriana Calcanhotto para organizar uma antologia de poesia. A resposta, na verdade, é bem fácil. Acredito que poucas pessoas no Brasil tiveram tanto contato com a poesia, seja escrevendo, lendo, cantando ou ouvindo da boca dos próprios poetas, dos quais ela esteve tão próxima, quanto Adriana. Seu conhecimento de poesia é tão respeitado que recentemente ela foi convidada para ministrar um curso numa universidade em Portugal. Adriana não só conhece a poesia, como tem o conhecimento suficiente para falar sobre ela.

Tendo discutido isso, passamos para o próximo ponto: como criar uma antologia de algo que está acontecendo? Adriana sabe disso e deixa claro no início do livro que enquanto ele está sendo organizado, impresso e lido, vários outros poetas estão surgindo, talvez muitos deles merecedores de estar naquela antologia, mas ainda restrito aos meios marginais da nossa atualidade, como os blogs e os fanzines. Justamente por isso a antologia é chamada de incompleta, pois o contemporâneo é quase impossível de se ver em seu próprio momento. Isso nos leva ao próximo ponto: variedade.

Como uma antologia que tem por intenção mostrar o panorama da produção poética atual, fiquei um pouco decepcionado por serem contemplados apenas poetas já publicados em livros, independentemente da editora. A poesia contemporânea vive na Internet. É lá que ela encontra a abertura para se jogar no mundo. Apesar disso, entendo o quão difícil seria a tarefa de incluir na antologia poetas que publicam na Internet, seja lá qual o suporte. Uma falta perdoável.

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Vamos falar então agora das próprias poesias. A nossa produção atual é muito vasta e não compõe um grupo de características específicas possíveis de definir. A antologia é composta tanto por poemas que rompem uma certa expectativa do que seria um poema, quanto por outros que suprem essa necessidade de um leitor mais acostumado com a poesia anterior às vanguardas.

Mas algo perceptível é a busca por um olhar que abarque nosso tempo, nossa vida, nossos amores, nossas obrigações, nossa sociedade. A maioria, se não forem todos, os poemas buscam uma determinada identificação com o presente, que, como já falei lá em cima, é muito difícil de construir. O tempo só é entendido por completo quando se torna passado. Mas, talvez por se tratar de poesia e arte, os poemas da antologia conseguem de alguma forma pelo menos criar as imagens do nosso momento, nos fazendo reconhecer neles uma espécie de similaridade com a poesia que existe fora dos textos, no mundo, na parada de ônibus, no supermercado, nas filas de banco, no tédio do amor nos tempos da classificação digital.

No fim, a antologia cumpre bem seu papel, graças ao olhar apurado de Adriana e a seriedade nas edições da Companhia das Letras, mas, como já dito, peca em dar visibilidade apenas àqueles poetas já publicados, muitos saídos dos blogs e de outros lugares da Internet.

Espero muito que a antologia seja atualizada com o passar dos tempos para incluir os novos poetas que surgem todos os dias. Espero que ela não pare apenas nessa edição, que seja um livro possível de se refazer, para manter acesa a felicidade de perceber que a poesia não morreu, apenas mudou de endereço.

 

“Meia-noite e vinte” de Daniel Galera

No limiar do ano 2000, o mundo tinha dois possíveis destinos: sofrer com o bug do milênio toda a desgraça que o avanço tecnológico traria, ou gozar das vantagens que esse super desenvolvimento tecnológico proporcionaria a nossas vidas. O mais irônico é perceber que as duas alternativas na verdade não eram alternativas, nem opostas, apenas dois fatores de um mesmo fenômeno: a nossa evolução tecnológica; e que vivemos exatamente na linha divisória, com os braços abertos tentando nos equilibrar, um no caos e outro na evolução.

Meia-noite e vinte

Os personagens de “Meia-noite e vinte” eram jovens em 1999. Antero, Aurora, Emiliano e Andrei curtiam uma espécie de fama na Internet graças a um fanzine virtual chamado Orangotango, que fazia sucesso online com textos literários, manifestos e experiências artísticas. Envoltos em festas, popularidade, juventude, sexo e drogas, os quatro amigos publicam o e-zine em um curto período de tempo, logo quando a vida os chama a se integrar à sociedade, sempre maior e nem sempre melhor que nós.

O livro começa com Aurora lendo no Twitter a notícia da morte de Andrei, apelidado de Duque pelos amigos, em um roubo de celular, com um tiro na cabeça. Isso impacta Aurora de uma forma profunda, fortalecendo nela a sensação de que o mundo está acabando (não em um sentido catastrófico, mas como se os dias fizessem parte de um lento processo de degradação da humanidade), representando aquela primeira postura que comentei no primeiro parágrafo desta resenha.

Daniel Galera

Ela encontra os outros amigos no enterro. Emiliano, um homem gay, jornalista free-lancer, que tem um fetiche envolvendo sexo e violência. Antero, o espírito-livre do grupo na época do fanzine, que se tornou um publicitário de sucesso, trabalhando para as grandes empresas e metido em um casamento ao qual ele não faz questão de manter fidelidade. E por último a própria Aurora, que decidiu seguir carreira acadêmica, mas esbarrou em um professor que lhe nutre um desafeto e a reprovou no exame de qualificação para a tese.

Todos se sentem chocados com a morte de Andrei, o único que seguiu carreira literária e manteve sua vida o mais privada possível. Cai nas mãos de Emiliano a tarefa de escrever uma biografia sobre o jovem misterioso e talentoso escritor.

O livro retrata de quatro pontos de vista diferentes o futuro da chamada geração Y, aquela que cresceu com a Internet, a revolucionária. Mostra como a vida exige de nós tanta energia que quase não sobra nada para os nossos desejos. E ainda por cima explora as facetas da nossa nova vida online, questionando a relação entre memória e digital. Quando morremos, o que sobra de nós na Internet faz parte da nossa vida? Quando morremos, o que se faz com nossos dados e rastros que ficam na rede? De certa forma, a Internet permite que nossa memória e presença permaneçam ativas em contas de usuários e fotos de perfil. No livro de Galera, isso é fundamental para o desenlace da trama.

Sou leitor ávido de literatura contemporânea e nunca vi um livro refletir sobre nossa época e nossas subjetividades com tanta fidelidade. Já li outros livros de Daniel Galera e sempre gostei, mas fiquei com a impressão de que precisava de algo mais. Eu precisava de “Meia-noite e vinte”.

(Resenha) As vozes de Tchernóbil – Svetlana Alexiévitch

A lembrança é traiçoeira. Ela finge manter uma imagem limpa e clara dos acontecimentos, quando na verdade retém um aspecto pequeno, distorcido e por vezes até irreal, mantido por um capricho sentimental ou até mesmo racional. Mas nada disso retira o caráter fantástico da história oral. A palavra falada e passada adiante tem um poder diferente do texto escrito. Ela tem mais emoção e tem os olhos marejados, a força da voz e da entonação. 
O livro de Svetlana começa com a transcrição dos informes de jornal da época do desastre nuclear em Tchernóbil e com a transcrição, também, do relato de uma mulher que perdeu o marido, bombeiro chamado para apagar o incêndio na usina. A narradora se pergunta, durante todo o relato, o motivo de amor e morte estarem associados tão frequentemente. 
A chave do livro de Svetlana é esse: dar voz ao homem pequeno. Deixar falar o ser humano comum, deixar que ele derrame toda sua poesia cotidiana e desinteressante, reformulada por uma catástrofe sem precedentes, nunca compreendida por completo. 
Grande parte dos relatos associa a forma como o governo soviético tratou o acidente como uma guerra. O vocabulário era de guerra, as ações eram de guerra, mas o povo soviético estava lutando contra o quê? O átomo. A física. O átomo da paz, como vendido pela União Soviética, oposto ao átomo que os EUA usou em Hiroshima e Nagasaki. 
Os relatos são chocantes e emocionantes. O livro é dividido em várias partes, dando voz a pessoas diferentes e histórias diferentes, revelando desde os anseios das crianças até a decisão dos mais idosos de continuarem vivendo na área contaminada, mesmo sabendo que correm risco de vida. Mas a radiação não se vê. Os animais sobrevivem, a colheita existe e o leite não tem gosto ruim, porque sair de lá? Pode ser um choque entrar em contato com a realidade do povo pobre soviético escolhendo viver ali a reconhecer uma falha do governo, que culpava espionagem, traição, mas nunca assumiu a culpa de ter construído um reator nuclear em três meses com material barato e com pouca segurança. 
A questão do gênero exato do texto de Svetlana deixa de ser importante quando se percebe a força da narrativa que ela constrói. Jornalismo literário, romance, autoficção, biografia. Não importa. A história é maior do que tudo isso é isso é o mais importante.

[Resenha] A morte do pai – Karl Ove Knausgård

13088_gg“Primeiro livro da saga literária que consagrou o autor no mundo inteiro”, esse é o resumo que você vai ler, sempre, ao pesquisar por esse livro. Confesso que isso me chamou atenção, ao lado do “fenômeno literário” que vem estampado em algum lugar da capa.

Comecei a ler sem pretensões, mas imediatamente fui fisgado. Obsessão, foi isso que senti pelo livro. Quase me senti a garota de “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, ao ter em mãos o livro que tanto anseara. Fingia que o livro não existia só para redescobrir o prazer de tê-lo. Comigo se passou o mesmo. Fiquei, mesmo, obcecado. Lia pouco todos os dias para fazer aquela experiência durar mais, sem nunca me perguntar a causa daquilo.

Uma pesquisa rápida pelo autor vai inclui-lo no ramo “recente” da literatura de autoficção. Não tenho muito conhecimento sobre o assunto e vou me arriscar a generalizar que se trata da ficcionalização do eu. Transformar o “ser” autor em personagem do livro ao mesmo tempo em que reconstroi as barreiras da ficção. No que isso difere da autobiografia, eu não sei dizer ao certo. Mas talvez consiga identificar uma e outra se ler um pouco de cada.

Enfim, a saga trata da vida de Karl Ove Knausgård, mas os limites entre biografia e ficção são tão finos, tão indistinguivéis, que a todo momento você se pergunta se aquilo é vida ou ficção, vida ficcionalizada, ficção baseada na vida, enfim.

Karl Ove tem uma declarada influência em Proust, apesar de manter um estilo mais reto, mesmo preservando as digressões características de Em busca do tempo perdido.

Essa resenha não é bem uma resenha, é mais uma indicação de leitura, então não irei me aprofundar muito.

Para concluir quero apenas dizer que a experiência de leitura de “A morte do pai” foi inigualável.

[Resenha] Dois Irmãos – Milton Hatoum

dois-irmaos-milton-hatoumImagine quantas histórias sobre irmãos que se odeiam você já leu/ouviu/conheceu na sua vida. Foi o que pensei sobre este livro. Mas desde o começo, eu dei um crédito imenso ao autor. Já havia lido um livro de Milton Hatoum antes, chamado “Relato de um certo oriente”. Ouvi falar do autor ainda na faculdade, com muito entusiasmo. O que posso dizer, agora, das narrativas de Hatoum é: exóticas. Primeiro, porque se passam no norte do país, no Amazonas, tendo Manaus como pano de fundo, a floresta, a mistura do português com outras línguas nativas e não nativas. Segundo, porque a maioria das personagens de Hatoum são imigrantes ou descendentes de imigrantes libaneses. A mistura de duas culturas, uma nacional e outra internacional, porém ambas desconhecidas minhas, tornaram as narrativas muito, muito excitantes.

“Dois irmãos” é considerado pela crítica especializada um dos melhores romances brasileiros da atualidade. É um livro que supera expectativas, mas vou arriscar o motivo: Hatoum não subestima seus leitores. A história, apesar de ter como “gancho” principal a relação conflituosa entre os irmãos Omar e Yaqub, não gira só ao redor desses dois personagens. Na verdade, a história é centrada muito mais na influência que a relação desses dois personagens ocasiona nos outros integrantes da família: Halim, o pai; Zana, a mãe; Rânia, a irmã e Domingas, a agregada e empregada da família e seu filho. Começa com o fato de que a história é apresentada por um narrador em primeira pessoa que só se “mostra” (se dá a conhecer de fato) depois de decorridas cinquenta páginas do relato e de toda a história ter iniciado. Sabemos, então, que quem narra é o filho de Domingas (só saberemos seu nome muito tempo depois, contado de uma forma extremamente honesta, sem parecer uma obrigação narrativa).Manaus_PB_01

Os irmãos, gêmeos, se odeiam desde a infância, pois tinham personalidades muito divergentes. Tudo se agrava quando ambos se interessam pela mesma menina e Yaqub consegue beijá-la em uma festa no porão da vizinha. Omar, meio enciumado meio humilhado (é assim que o narrador faz parecer de fato) rasga o rosto de Yaqub. A família sente medo da relação dos irmãos e resolve mandar Yaqub para morar com a família numa aldeia no Líbano. Sim, parece absurdo exilar um filho assim só por medo da relação dele com o irmão, mas lhe adianto que este livro é composto de uma série de escolhas péssimas por parte dos pais dos gêmeos. A mãe, Zana, não permite que Omar vá também, pois tem medo que ele se machuque, alegando que o filho é muito frágil. A partir daí, a superproteção de Zana com Omar leva as coisas a níveis muito ruins.

Quando Yaqub volta, anos depois, ele e o irmão já são estranhos e o ódio que sentem é mutuamente  cultivado. Muitos conflitos acontecem ao longo da narrativa que inflamam essa relação. Aí vem um grande diferencial da narrativa: não existe um gêmeo bom e um gêmeo ruim. Os dois têm personalidades muito diferentes: Omar é abusivo, fanfarrão, malicioso; Yaqub é orgulhoso, não mede esforços para conseguir o que quer e não tem medo de abandonar todos. Ao longo da narrativa a família sente pena de um ou de outro, sem entender propriamente quem é culpado de que na história dos irmãos; o leitor é levado junto, ora simpatiza com Yaqub, ora com Omar.

O fim da narrativa é trágico, mas não porque aconteceu algo trágico necessariamente. Esta é uma história familiar, extremamente sedutora, porque pode ser real. A profundidade dada às personagens faz com que o leitor se familiarize com cada uma delas. Desde o distanciamento da família que Yaqub almeja à atitude extremamente passiva e condescendente de Zana com Omar.

Além disso, Hatoum cria uma trama temporal muito bem desenvolvida, mesclando casos particulares da família com a situação histórica de quando a narrativa acontece (fim da segunda guerra mundial e início da ditadura militar brasileira). Apesar disso, esse cenário político não é trabalhado de forma exagerada. Existem momentos, inclusive, que é possível esquecer da influência da ditadura militar, já que ela quase nunca é enunciada pelo narrador, o que, para mim, demonstra a incrível capacidade que Hatoum tem de criar personagens verossímeis.

Por fim, eu ressalto o cuidado com os pormenores da narrativa que Hatoum demonstra. Hoje em dia, na era das sagas literárias e da necessidade de colocar no mercado um livro por ano, ler um livro realizado com cuidado é algo refrescante, quase orgástico, mesmo. (Não estou criticando as sagas literárias. Eu mesmo sou um grande fã de sagas. Mas até os próprios autores sentem a pressão do mercado editorial por novidades e percebem que isso, às vezes, pode influenciar na qualidade do trabalho de escrita. Como exemplo, sugiro que leia a resposta que o Neil Gaiman deu a um leitor do seu blog ao perguntar o que o escritor achava do George R. R. Martin ainda não ter terminado o sexto livro da saga das Crônicas de gelo e fogo).

Sim, esse é um dos melhores livros que li.