As últimas testemunhas, Svetlana Aleksiévitch

Primeiro… vi um cavalo morto… Depois… uma mulher morta… Isso me surpreendeu. Eu imaginava que na guerra só matavam homens.

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A terra inteira e o céu infinito, de Ruth Ozeki

Existe alguma coisa que nos faz separar imediatamente a cultura e a filosofia oriental da ocidental. Não estou bem certo o que é. Talvez seja a mesma coisa que nos faz separar ciência da magia; religião de razão; fé da verdade.

O fato é que Ruth Ozeki conseguiu algo que eu achei que fosse impossível. Primeiro, escrever um livro que não só falasse sobre o zen budismo, mas que também incorporasse esse princípio na narrativa. Depois, unir, nessa narrativa, a mecânica quântica à descoberta do tempo pelo sujeito no zen.

É aqui que entra o meu questionamento do parágrafo anterior. E talvez eu tenha uma resposta. O zen é baseado no caminho. Conhecer-se é conhecer o caminho e conhecer o caminho é esquecer de si mesmo. A mecânica quântica acredita que nossa atuação (foco em ação) no tempo gera inúmeras possibilidades que nos levam a caminhos diferentes. Cada pequena ação no tempo bifurca o curso do próprio tempo, fazendo com que possamos existir em várias linhas temporais diferentes. Esquecendo de nós mesmos. Posso estar forçando a barra, mas talvez isso nem importe.

No livro, tudo começa quando Ruth, a personagem principal, encontra um saco, numa costa do Canadá, contendo um diário, algumas cartas e um relógio, vindos do Japão. Ao longo do livro ela tenta descobrir informações sobre Naoko (que escreveu o diário) e sua família, mas isso na verdade não importa.

Ruth experimenta, na leitura do diário, as várias possibilidades de existir no tempo. Parece, na verdade, que o diário está sendo escrito no momento em que, também, é lido.

E assim acompanhamos, ao mesmo tempo, a história de Naoko, descobrindo, por intermédio de sua tia-avó (uma monja de 104 anos) o zen, além de todas as dificuldades da vida de uma adolescente no Japão: a pressão por ser bem sucedida, o bullying, ou ijime, sofrido na escola, o isolamento e a visão (muito diferente da nossa) do suicídio.

E acompanhamos também Ruth, uma escritora de apenas um livro publicado, no meio de uma crise criativa, observando os dias se acumularem enquanto não consegue realizar nada de muito concreto, a não ser a leitura e a busca por Naoko.

O livro, obviamente, termina sem muitas respostas. Porque, na verdade, isso não importa. Ao concluir, você percebe a existências dessas personagens no tempo, e percebe a si mesmo como um ser-tempo. Existindo, agindo, conhecendo-se, trilhando o caminho e se esquecendo nele. O tempo é feito de momentos (cada estalar de dedos corresponde a 65 momentos, segundo o zen) e em cada um deles experimentamos 65 possibilidades de ser e existir como algo diferente.

Lendo “O chamado do cuco” de Roberth Galbraith

– “Com as toneladas de matérias em jornais e horas de falação pela TV sobre o assunto da morte de Lula Landry, raras vezes se fez essa pergunta: por que nos importamos? 

“Ela era linda, é claro, e as mulheres bonitas têm ajudado a movimentar jornais desde as sereias hachuradas de pálpebras caídas de Dana Gibson para a revista New Yorker.”

Lendo “Vozes de Tchernóbil” – Svetlana Aleksiévitch

“Na zona e ao redor da zona, a enorme quantidade de equipamentos militares era assombroso. Soldados em formação marchando com as suas armas novinhas em folha. Com todos os acessórios de combate. Não sei bem por quê, das armas me recordo mais que tudo, e não dos helicópteros e dos blindados. Das armas… De pessoas armadas na zona. Em quem eles poderiam atirar ali? De quem iriam se defender? Da física? Das partículas invisíveis? Metralhar a terra contaminada ou as árvores?”

Página 45.

It – a coisa – Stephen King 

“Uma criança cega de nascença nem sabe que é cega até alguém dizer para ela. Mesmo então, ela só tem uma noção das mais acadêmicas sobre o que é a cegueira; só quem já enxergou tem uma noção verdadeira do que é ser cego. Ben Hanscom não tinha noção de ser solitário porque nunca teve nada diferente. Se a condição fosse nova ou mais restrita, ele poderia entender, mas a solidão dominava e se sobressaía na vida dele. Apenas existia, como o polegar com duas juntas ou a parte irregular nos dentes da frente, a parte irregular onde a língua tocava quando ele ficava nervoso.”

Citação: It – a coisa – Stephen King 

“Este caderno é para ser um esforço para superar essa obsessão com a ampliação do foco da minha atenção. Afinal, há mais nesta história do que seis garotos e uma garota, nenhum deles feliz, nenhum deles aceito pelos colegas, que tropeçaram em um pesadelo durante um verão quente quando Eisenhower ainda era presidente. É uma tentativa de afastar um pouco a câmera, para ver a cidade inteira, um lugar onde quase 35 mil pessoas trabalham e comem e dormem e copulam e compram e dirigem e andam e vão para a escola e vão para a cadeia e às vezes desaparecem no escuro.”