A vida além da alegria

Parece que nunca estivemos tão obcecados com o “ser feliz” quanto estamos agora. É tão imperativo, que a busca pela felicidade se tornou uma imposição: tudo que fazemos, tudo que consumimos está preso nessa vontade de superar nosso cotidiano ridículo e atingir uma forma além do comum, uma forma de alegria plena, de felicidade irrefutável.

 

O problema está no fato de que o “ser feliz” é quase impossível. Freud escreveu que nossa sociedade está construída de uma forma em que estamos sempre buscando a realização de um desejo; nessa realização está a ilusão de que seremos felizes. Por exemplo: queremos o modelo mais recente de celular; quando o conseguimos, a felicidade dura semanas, raramente meses e logo estamos desejando ardentemente uma outra coisa, uma outra pessoa, que parece ser a promessa de nossa felicidade. A dinâmica é sempre essa: nosso desejo flutua entre realizações que nos são apresentadas como a promessa da felicidade. A propaganda é focada nisso; nosso crescimento pessoal é focado nisso. Assim, é mais justo procurar o “estar” feliz do que o “ser” feliz, pois o estado inalterável da felicidade não existe.

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Trecho do vídeo de Fake Happy, de Paramore.

É terrível, não é? Mais ou menos.

 

Paramore, a banda de rock alternativo, lançou em 2017 seu último álbum de estúdio chamado “After Laughter”. As letras e as músicas, como sempre, estão centradas na experiência emocional da vocalista e letrista da banda, Hayley Williams. Mas há um amadurecimento gigante em como esses sentimentos são abordados. Antes, vamos ao conceito geral do álbum.

 

“After Laughter” seria, na explicação de Hayley, a cara que fazemos depois de terminar de sorrir. Essa queda no real nos confronta com a banalidade da vida, que nos concede apenas poucos momentos de alegria e menos ainda momentos de felicidade genuína.

 

No lugar de negar esse momento em que a felicidade acaba, Hayley decide se debruçar sobre ela e com ironia e sarcasmo certeiros ela cria letras que mostram a fragilidade do nosso sentimento de felicidade e permanência dessa “queda no real” que nos vem nos momentos em que não estamos felizes. A vida parece ser feita, basicamente, dessa dualidade. Se quer um exemplo melhor, veja o vídeo e leia a letra da canção “Fake Happy” aqui.

 

De novo, parece terrível encarar o fato de que a felicidade nunca será permanente, não é mesmo? Para mim, é o contrário: é muito mais honesto assumir que a alegria e a felicidade nos vêm em momentos e que a vida é constituída dessa dinâmica. É menos imperativo, menos cansativo e mais satisfatório: assim, não passamos a vida inteira em busca de uma felicidade plena irreal e aceitamos os momentos aquém e além da alegria, quando a realidade é extremamente banal e planamos no mundo comum, aquele do trabalho, das relações superficiais.

 

Não conseguimos, ainda, mudar a forma como a sociedade controla nossos desejos e ambições, mas podemos mudar a forma como aceitamos todos os momentos de nossa vida, os melhores e os piores, além dos neutros. Pode ser uma visão mais realista da felicidade. Essa é uma resposta definitiva? Não. Mas é uma linha de pensamento e pensar ainda é a melhor forma de nos livrar do mal, do sofrimento, da banalidade. Negar não nos leva a nada, mas refletir pode nos levar a algum lugar.

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Trecho do vídeo de Fake Happy, de Paramore.
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O homem sem cultura

Estou tendo contato com algumas ideias de Agamben, filósofo italiano.

Em um levantamento sobre o surgimento do “homem de gosto” (aquele que pode ser um crítico ou apenas um grande apreciador de arte), ele mostra que essa figura se fortalece na época do romantismo, quando a arte é elevada a um patamar bastante alto. A partir de então, o fazer artístico se tornou mais importante que a própria arte. Isso apartou o artista dos demais extratos da sociedade, um reconhecimento que os românticos se esforçaram para obter.

Isso também cindiu a própria arte em alta cultura e baixa cultura. O problema é que a apreciação desinteressada (arte pela arte) da arte é insustentável, e o homem de gosto acaba por se interessar também por exemplares da baixa cultura.

A maioria das pessoas acha impossível gostar de Chico Buarque e Pabllo Vittar ao mesmo tempo, por exemplo.

Lembro-me, também, de que Bauman via que a eleição de uma “alta cultura” servia bastante à classe dominante para marginalizar aqueles que não eram identificados como “homem de gosto” (de “bom” gosto, no caso).

Vejo como Agamben: essa distinção é insustentável. A arte desinteressada caminha ao lado do entretenimento, e como seres plurais, somos permitidos circular por todos os extratos da cultura.

É necessário ainda questionar o que distingue esses extratos, mas para isso ainda não tenho mais respostas, além da visão de Bauman.

 

O que você pensa sobre o assunto?

O jardineiro

Estava acabando, bastava depositar a última pá de terra seca sobre o corpo já completamente escondido e estaria finalizado. O sol havia esquentado seus miolos e ele quase não era capaz de pensar.

Morava ali sozinho e fazia questão de enterrar todos os corpos que apareciam no que ele chamava de “meu jardim”. Era um jardineiro, não um coveiro. Convencia-se da paz no seu trabalho. Dava alguma dignidade àqueles que ele sequer sabia o nome. Não os nomeava, nem enumerava. O anonimato talvez fosse a única paz verdadeira para aqueles homens, mulheres e uma (única) criança. Com essa fora especial. Deu banho. Encontrou uma roupa ainda usável no lixão ao lado e a vestiu. O garotinho estava lindo, um anjinho indo direto para o céu. Amém.

Esfregou a testa escorrendo de suor. Sorriu para o seu trabalho bem feito. Olhou todas as outras covas e era isso. Fazia o bem a quem precisava. Era isso.

Guardou a pá no galpão improvisado de caixas de papelão onde estava tudo de que ele necessitava para seu trabalho.

A noite caiu veloz enquanto ele dormia na poltrona velha e desgastada em frente à grande TV de tubo. Tudo herdado do que as pessoas não queriam mais.

O jornal começou com a notícia principal. Um filho de alguém havia sumido. Ele se assustou quando viu o rosto do rapaz que havia enterrado hoje. Era ele. Tinha um nome. E essa era toda a desgraça.

(Filme) A bruxa

Esse fim de semana finalmente assisti “A bruxa”. Na época de seu lançamento, foi considerado o melhor filme de terror do ano. Demorei a assistir, mas não sei bem o motivo.

Histórias de bruxas me chamam atenção desde pequeno. Gosto da mitologia, das possibilidades e até estudei Wicca por um tempo.

O filme se passa ainda na época da colonização dos EUA, com uma família recém chegada da Inglaterra, que discordou da forma como os colonos da aldeia pregavam sobre Deus. Por este motivo, a família foi expulsa e é obrigada a viver próximo a uma floresta. Os rumores que culminariam nos sacrifícios das bruxas de Salem possivelmente já haviam começado, mas nada fica claro no filme.

Logo depois da mudança um dos filhos da família desaparece. Isso inicia toda uma onda de histeria que culmina com cada um da família sendo acusado pelos demais de ser uma bruxa.

Para um filme que tem por título “A bruxa”, essa personagem aparece apenas 3 vezes durante o filme inteiro e é retratado de forma muito comum (na minha opinião).

O filme está longe de ser um grande filme de terror, mas é um filme muito bom. Cenografia, fotografia e atuações excedem o esperado e a cena final é muito bonita e bem construída (se você gosta de bruxas) e até um pouco medonha (se você se impressiona fácil).

Pesa positivamente o fato de que o filme foi escrito de acordo com lendas, relatos e relatórios sobreviventes dessa época. Tendo diálogos, inclusive, sendo adaptados desse material.

inferno (1 e 2)

1

 

na encruzilhada dos dezesseis anos conjurei este demônio. minha vida cristã havia acabado enquanto eu arrastava meu corpo molestado por veredas e sendas da alma, cruzando quilômetros de estradas de barro.

 

2

 

abracei e calei a dor escondida bem fundo, junto com cores, flores e toda uma série de amores que fui ensinado a esquecer, pois ninguém me ouvia. busquei por todos os cactos daquela terra sombria, vendo passar as romarias de pessoas silenciadas, com olhos sobrenaturais abertos, rasgando o baixo-ventre chegando até a barriga. pensei sermos irmãos no silêncio, mas ninguém queria confraternizar com minha nova alma pagã, matando a sede nas cacimbas, comendo pedra moída, murmurando invocações terríveis, abandonando a vida.