maré

nas ondas quebradas

obscuras da noite

eterna

maré cerebral

eu danço

ao som das memórias ferozes

e corais luminescentes.

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o povo do sol

o povo do sol ressoa

a lâmina ardente cauteriza o corte

vaza a alma sobre o chão

lama candeia ilumina o dia

 

ressoa o povo do sol

ao meio dia

renova a lama com suor

 

do sol o povo ressoa

espoca a pele

no dia

 

o povo no sol

inferno (1 e 2)

1

 

na encruzilhada dos dezesseis anos conjurei este demônio. minha vida cristã havia acabado enquanto eu arrastava meu corpo molestado por veredas e sendas da alma, cruzando quilômetros de estradas de barro.

 

2

 

abracei e calei a dor escondida bem fundo, junto com cores, flores e toda uma série de amores que fui ensinado a esquecer, pois ninguém me ouvia. busquei por todos os cactos daquela terra sombria, vendo passar as romarias de pessoas silenciadas, com olhos sobrenaturais abertos, rasgando o baixo-ventre chegando até a barriga. pensei sermos irmãos no silêncio, mas ninguém queria confraternizar com minha nova alma pagã, matando a sede nas cacimbas, comendo pedra moída, murmurando invocações terríveis, abandonando a vida.

fracasso

broken-lightbulb

o fim do dia ruge nas pregas inconsistentes do domingo

a natureza adormeceu

pousando nos céus os contrastes do acidente

 

os símbolos se esvaziaram

todos os sinais sumiram sem rastros

deixando nos sonhos aquele gosto rançoso do fracasso

 

que persiste inefável

infalível

enraizando os espaços vazios

que formam a estrutura da vida por acaso